Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas

Dentro da estatística fornecida pelo meu blog, percebo um grande interesse pelo tema Escravidão em Nova Friburgo. Sugiro então o livro “Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas” de Jorge Miguel Mayer e Edison Lisboa, cuja resenha feita pelo Prof. João Raimundo, como segue abaixo, nos mostra o que representa essa obra. Boa Leitura.



HISTÓRIA REGIONAL E ESCRAVIDÃO
João Raimundo de Araújo
Titular de História do Brasil da FSD
Dr. em História Social pelo PPGH-UFF
LISBOA, E. de C.; MAYER, J.M. Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas – Um
estudo sobre a escravidão em Nova Friburgo no século XIX, Nova Friburgo: Marca,
2008.




O crescimento da pesquisa histórica no Brasil a partir do desenvolvimento dos cursos de pós-graduação desde o último quartel do séc. XX tem trazido interessantes resultados, seja na revelação de fontes, ou na produção de novos e enriquecedores estudos historiográficos. Este é o caso da obra em questão. Acrescente-se ainda o fato de tratar-se de uma pesquisa que se enquadra perfeitamente nos pressupostos da chamada História Regional. Um trabalho de pesquisa nos arquivos do Cartório do 2º Ofício do município de Nova Friburgo possibilitou adescoberta de um processo criminal de 1850, que tratava de um conflito entre feitores e escravos da Fazenda “Ponte de Tábuas”, localizada nas proximidades do atual distrito de Conselheiro Paulino. A importância da descoberta desta fonte transcende os limites do município, já que, sem dúvida alguma, trata-se de interessantíssimo documento para o estudo da escravidão brasileira em geral e, não menos importante, para o estudo da escravidão na Vila de São João Batista de Nova Friburgo. Durante longos anos, alguns intelectuais encarregados de escrever a história oficial de Nova Friburgo perseguiram o lema da criação da “Suíça Brasileira”, a partir da chegada dos imigrantes suíços no início de 1820. Tratava-se de uma colônia criada por um decreto Real (16 de maio de 1818) e que seria responsável pela implantação, em plenos trópicos, de uma comunidade baseada na pequena propriedade e na predominância do trabalho de homens e mulheres livres. Desse modo, a escravidão negra, que se alastrou por áreas rurais e cidades do Brasil, não caracterizaria a colônia dos suíços em Nova Friburgo. Entretanto, a criação, nos anos 80, de um grupo de pesquisadores oriundos do meio universitário - Departamento de História da UFF e da Faculdade S. Doroteia - baseados nos pressupostos da História como “ciência em construção” veio a mudar radicalmente o rumo dessas questões, estimulando a pesquisa de fontes históricas e a elaboração de teses, dissertações e monografias sobre Nova Friburgo. Ressalte-se o pioneirismo da obra A Gênese de Nova Friburgo, do historiador suíço Martin Nicoulin, publicado pela Editora da Biblioteca Nacional, redefinindo o debate sobre as origens, a história e a construção colonial de Nova Friburgo.
A obra que ora resenhamos insere-se nesse contexto de revisão em torno das origens e - por que não? - da própria História e é, sem dúvida, parte importante desse novo olhar, criador de uma nova identidade percebida pelos historiadores a partir dos
anos 80.

O trabalho de Edson Lisboa (licenciado em História pela Faculdade S. Doroteia de Nova Friburgo) e de Jorge Miguel Mayer (Professor Associado do Departamento de História da UFF, Doutor em História pelo PPGH-UFF) estuda um processo criminal relativo a uma violenta revolta de escravos, ocorrida no ano de 1850, na Fazenda Ponte de Tábuas, de propriedade do Comendador Boaventura Ferreira Maciel, em Nova Friburgo. A descrição do fato com riqueza de detalhes é, antes de mais nada, revelador de um processo de luta de classes, não faltando até mesmo o assassinato do feitor, de dois trabalhadores da fazenda, e a espetacular fuga de um significativo número de cativos.

A princípio, o livro conta com um Prefácio elaborado pelo historiador Ciro Flamarion Santana Cardoso, que efetua uma interessante discussão teóricometodológica em que confronta os historiadores que veem a História a partir de uma visão de Totalidade, com os pós-modernos cujos trabalhos não chegariam ao centro das questões. Esta obra, além da contribuição para os estudos regionais é, também, uma contribuição para os estudos baseados na Totalidade histórica.
O 1º capítulo, intitulado “Contribuição ao Estudo da Escravidão” constitui um conjunto de argumentos ressaltando o valor desse tipo de estudo baseado em fontes como inquéritos e processos criminais. Neste caso, a contribuição se faz ainda no que tange ao aprofundamento de questões que valorizam os estudos regionais.

O 2º capítulo, intitulado “A Fuga e o Processo” trata da exposição de relatos constantes nos autos – a fonte histórica -, onde são percebidas as vozes dos protagonistas do fato. As perguntas formuladas à fonte constituem subdivisões do capítulo e revelam os motivos causais bem como a lógica dos crimes e da fuga dos escravos. O leitor desta parte da obra passa a ter noção clara da violência estrutural do regime escravocrata em geral e, especificamente, como essa violência se fazia no cotidiano dos escravos desta fazenda através das ações, sem limites, dos agentes dos
proprietários. Neste caso, a reação dos escravos revela também um alto grau de violência comprovado nos trechos relativos aos depoimentos dos legistas encarregados dos exames de corpo de delito. É importante ressaltar, neste capítulo, o trecho referente ao subtítulo “Raízes do Conflito”, onde o leitor pode concluir que os crimes e a fuga dos escravos são respostas possíveis à manutenção do sistema desumano e hediondo representado pelos três séculos de escravidão no Brasil.

O 3º capítulo, “Inquérito sobre a escravidão em Nova Friburgo” é menos descritivo, porém bem mais analítico que o capitulo anterior. Nele, os autores revelam preocupação no sentido de conhecer e entender a escravidão negra no seu contexto temporal e espacial. A presença da escravidão negra em Nova Friburgo é uma verdade inquestionável, mesmo que a vila tenha sido a princípio colonizada por imigrantes suíços. Os elementos básicos de um sistema montado numa economia agrária e escravocrata não sofreram alterações profundas mesmo numa realidade de pequenas e médias propriedades dedicadas à policultura. Efetivamente, a presença dos colonos
suíços e alemães não foi capaz de mudar mais profundamente o quadro da escravidão na antiga região da fazenda do Morro Queimado. Helvéticos e germânicos, na verdade, adaptaram-se ao mundo da escravidão, revelando absoluta incapacidade de transformálo em sua essência.
A edição do livro “Os crimes da fazenda Ponte de Tábuas” tem enorme importância para os estudos relativos à História Regional/Local, dando visibilidade à existência da escravidão negra em Nova Friburgo, fato negado por alguns escritores do município. Consideramos ainda que o trabalho dos historiadores Lisboa e Mayer constitui-se de maior valor, por revelar uma fonte inestimável para todos aqueles interessados em estudar o passado para melhor compreender o presente, objetivando mudá-lo. Trata-se ainda, de um livro muito bem escrito, de fácil compreensão e que certamente se destina a um público não apenas da academia, mas a todos curiosos e interessados em nossa História.
Vale muito conferir.



2 Response to "Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas"

lanaita disse...

Onde era a casa sede desta fazenda?

Anônimo disse...

Como Consigo comprar este livro? E esses documentos encontrados no cartório continuam em friburgo, ou foram mandados para o Arquivo Nacional?

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