UMA VIAGEM DE TREM PELO CENTRO DE NOVA FRIBURGO

Exposição do trem na Praça Getúlio Vargas em Nova Friburgo:




Percurso de um trem muito próximo do que teria sido em Nova Friburgo:

A BUSCA POR MERCENÁRIOS: A Imigração Alemã – Parte 3

Hussardo Russo

A imigração dos alemães ao Brasil está diretamente relacionada com a organização militar do país, ocorrida no Primeiro Reinado. O fim da era napoleônica trouxe paz à Europa e a desmobilização dos exércitos devolvera à vida civil milhares de soldados. Era uma geração nascida e criada na guerra e para o qual não havia emprego e nem alimento suficiente devido ao excesso de população dos países e Estados europeus. Como o Exército brasileiro era deficiente, optou-se pela contratação de mercenários, ou seja, soldados experientes em combate. Porém, havia um problema: a legislação dos países proibia a emigração de ex-combatentes por uma questão de segurança nacional. A solução encontrada pelas autoridades brasileiras para driblar essa proibição foi a de misturar alguns poucos colonos ao recrutar mercenários, já que os primeiros eram autorizados a emigrar. Para cada grupo de mercenários contratados teriam que vir também algumas famílias de colonos.

O Brasil já recrutara em 1820 degredados italianos(Napolitanos) para as Forças Armadas, mas foi uma experiência que não deu certo e o governo tomou a decisão de conservá-los nas prisões do Rio de Janeiro. Para a nascente Marinha Imperial brasileira foram cooptados marinheiros ingleses. Estima-se que 30 oficiais e 500 marinheiros ingleses foram aliciados nos portos brasileiros, o que irritou de sobremaneira o governo inglês. O herói inglês Lorde Cochrane entrou para a Marinha brasileira, como Almirante, e fez a diferença na Guerra da Independência. As autoridades brasileiras tentaram inicialmente contratar mercenários franceses e suíços, esses últimos considerados os melhores soldados por sua disciplina e moralidade, mas por falta de recursos financeiros não pode fazê-lo. Cerca de duzentos colonos suíços de Nova Friburgo abandonaram a agricultura em troca de um soldo fixo no Exército Imperial, além da promessa de rápidas promoções e a possibilidade de se instalarem onde bem entendessem após 3 anos de serviço militar. A esses suíços juntou-se um pequeno número de estrangeiros de várias nacionalidades que vagavam pelo Rio de Janeiro para servir nas Forças Armadas. Como o sogro de D. Pedro I era Imperador da Áustria, tentou via diplomática obter mercenários austríacos, mas as autoridades desse país impediram essa empreitada. Ainda se tentou cossacos russos, mas não lograram êxito. Finalmente, optou-se por mercenários alemães. Logo, a iniciativa de contratação de mercenários, no Primeiro Reinado, voltou-se então exclusivamente para os Estados Alemães.

Assim como os suíços tiveram Gachet para intermediar a sua vinda ao Brasil, os alemães possuíram como agente, com nome aportuguesado, Jorge Antonio Aloísio Von Schäffer. Em comparação a Gachet, pode-se afirmar que Schäffer tinha muito mais poderes e influência junto às autoridades brasileiras, gozando inclusive de extrema confiança da Imperatriz Leopoldina. Schäffer tornou-se o pai da imigração alemã no Brasil e foi escolhido por José Bonifácio para a missão de cooptar mercenários nos Estados Alemães. Schäffer era médico e descrito como um alemão feio, desajeitado, vaidoso e que bebia muito. Porém era hábil, culto e insinuante. O problema de Schäffer era as suas notórias bebedeiras e bacanais que promovia que não condizia com o comportamento de um representante oficial de um país. Não foi por acaso que angariou a rejeição da comunidade internacional e perdeu a representação política e diplomática do Brasil ulteriormente. Schäffer parte para a Europa para cumprir a sua missão de obter o reconhecimento da independência do Brasil e arregimentar soldados. Os alemães aliciados por ele compreendiam mercenários e colonos, sendo que esses últimos foram cooptados apenas para disfarçar a contratação de soldados e fugir da fiscalização dos Estados Alemães, que proibia a contratação de ex-combatentes. Os soldados viajariam às custas do governo brasileiro, serviriam durante seis anos como militares pagos e depois receberiam terras para cultivar.

No entanto, Schäffer diferentemente do que lhe fora determinado, arrolou nas duas primeiras expedições, o Argus e o Caroline, muito mais colonos do que mercenários, e isso com uma presteza que surpreendeu as autoridades brasileiras, que não estavam preparadas ainda para recebê-los. E foi por isso, que Nova Friburgo entrou nessa história, como veremos adiante. Foi preparado às pressas, para alojar os colonos alemães, um antigo conjunto de prédios velhos destinados a industrialização de óleo de baleia na Armação de São Domingos da Vila Real da Praia Grande(Niterói). Para recebê-los e encaminhá-los, criou-se a Inspetoria de Colonização Estrangeira nomeando para sua direção Monsenhor Miranda, que já tinha experiência na imigração dos colonos suíços em Nova Friburgo. Por que Schäffer conseguiu enviar tão rápido os imigrantes alemães para o Brasil logo que chegou à Europa? É o que veremos na matéria "Soldados ou Colonos"?
Soldados russos
Guarda Suíça, notória por sua disciplina, daí tornar-se a Guarda do Vaticano

A Fisiologia da Cidade: Tipos Friburguenses no Século 19

A “fisiologia” foi um gênero literário que surgiu na França na primeira metade do século XIX, sendo denominada “literatura panorâmica”. Nesse tipo de texto, singelos cadernos em tamanho de bolso – que eram chamados de physiologies – assumiram um lugar de destaque. Buscavam tipos como aqueles que são encontrados por alguém que dá uma volta pelo mercado. Desde o camelô até os elegantões do foyer da ópera, não havia nenhuma figura da vida parisiense que o physiologue não tivesse desenhado. Após ter-se dedicado aos tipos humanos, a série chegou à fisiologia da cidade. Aparecem Paris la nuit, Paris à table, Paris dans l’eau, Paris à cheval, Paris pittoresque, Paris marié. O objetivo das fisiologias era dar uma imagem alegre e cordial das pessoas entre si (Benjamin, 1985, p. 65).

Certamente, os jornalistas em Friburgo conheciam esse tipo de literatura. Foi editado por algum physiologue friburguense Typos de Friburgo, um elegante livrinho no qual eram descritas as pessoas mais conhecidas da sociedade, no registro de O Friburguense de 22 de setembro de 1898. Numa sociedade que era uma verdadeira “torre de Babel”, compreendendo portugueses, italianos, espanhóis, franceses, turcos, descendentes de suíços e os nativos, desfilavam por Friburgo variados tipos sociais, personagens ilustres e alegóricos do cotidiano da cidade. A coluna denominada “Typos de Friburgo”, assinada por um certo “Língua de Palmo”, inventariou interessantes descrições de figuras ilustres, entre políticos, médicos, negociantes e capitalistas. Essa coluna nos legou, através do encômio de alguns desses tipos, uma noção do que eram as qualidades do homem oitocentista. Ao se analisar esses “tipos”, observa-se que havia elementos que se repetiam na definição de cada um dos descritos. Uma característica que era vista como uma qualidade e que se manifestava em quase todos eles era a eloqüência, a palestra atraente, o aticismo, a verve, a aptidão para a oratória, a qualidade de um causeur, atributos muito apreciados em um homem naquela época. A modéstia, sem dela fazer gala, vinha também a reboque como uma qualidade do homem oitocentista. Se fosse bom palestrante e ainda por cima modesto, diversos louvores eram tecidos sobre o indivíduo, comungando essas duas qualidades numa simbiose perfeita. Além da oratória, a escrita também era valorizada, principalmente dos que se aventuravam na literatura, como era comum em Friburgo, em particular os advogados.

A erudição e as sentenças clássicas eram ainda muito apreciadas. Logo, a estirpe intelectual era destacada, fosse ela decorrente do conhecimento literário ou filosófico, das artes dramáticas, da ópera, do lírico ou da música. A elegância e o porte eram características também muito destacadas, sendo o tipo dândi o mais reverenciado, cuja indumentária era descrita com detalhes, de forma quase pedagógica, para dar mostras aos pupilos do que era ser um homem elegante e seguir-lhe o modelo. O fumo de charutos era um hábito apreciado por quase todos. O fato de ser um indivíduo trabalhador também era destacado, principalmente quando eram homens de sucesso, numa analogia entre labor e fortuna. Quanto ao aspecto sedutor, alguns eram reverenciados não somente por sua beleza, considerados enfant gaté, como ainda por sua qualidade natural de conquistador que gozava das simpatias das damas da cidade. Eram esportistas, amantes de caminhadas, cavalgadas ou equitação, caça e pesca. A voga dos esportes e dos exercícios físicos combinava com os modelos higienistas da época. Souza Cardoso foi um dos tipos descritos pelos fisiologistas:

(…) É poeta e redactor d’O Friburguense (…) seo jornal é bem feito,
noticioso, litterario, symphatico e no gênero representa um verdadeiro tour de force, de perseverança e abnegação (…) sua política é a da prosperidade desta terra a que muito presa. O typo phisico é atrahente, sente-lhe nas longas barbas brancas a bondade e a paz de patriarcha feliz. O Friburguense é seu filho mais novo, o seu querido Benjamim a quem elle prodigalisa thesouros de ternuras e prosa que não parece velho pelo geito e pela graça (…).

Alguns desses tipos foi possível identificar, mas a seleção a seguir, extraída de diversos números de O Friburguense de 1896, serve para exemplificar o que era objeto de gabo da sociedade friburguense:

1) É popularíssimo em Friburgo. Passo lento e bambo de philosofo nostálgico(…). É um repositório inesgotavel de erudição, de sentenças clássicas, de ironia acerada e brilhante. Tem a nobreza de uma illustre estirpe intellectual. É advogado(…).

2) É barão. Estatura fina e delgada de canário belga.
Madrugador, jovial, percorre Friburgo n’um abrir e fechar d’olhos, passo rápido, nervoso, vestes largas e simples. Tem um repertorio vasto de pilherias conhecidas e inéditas, applica-as com um jeito fidalgo e ferino, roda sobre os calcanhares acuvo, afreimado(…). É amador da musica, assobia Arias, canta duettos, faz variações por flauta, discute a Paixão, enthusiasma-se como um rapaz, deita dircurso (…).

3) Traja irreprehensivelmente. Maneiras fidalgas de uma distincção notável, linguagem fácil, luxuosa, incisiva. Discute tudo, psychologia, briga de gallos, com o mesmo primor de forma, com a mesma belleza e elevação (…). É um prazer delicioso ouvil-o em momentos de humorismo hilariante ou de pessimismo paradoxal(…).

4) É engenheiro e já foi vice-presidente deste Estado. Sympathico, despreoccupado, sua palestra é uma bella orchestração de ditos corroscantes, de conceitos originaes e justos, envolvidos na púrpura de uma imaginação, opulenta, meridional (…). (Getúlio das Neves.)

5)Advogado e philosofo. Contemplativo, absorto, passa horas e horas a scismar em doenças, a construir castelos de pílulas (…).

6) É tabelião(…). Veio para Friburgo como um palito, com o pulmão fraco, versos lipicos e prosa romântica; hoje é um bom burguez, meticuloso e exacto no cumprimento dos seus deveres.

7) Entre os typos sumpathicos de Friburgo cabe-lhe lugar no primeiro plano. É medico e deputado. Medico distincto, caritativo, dispensa com maior desinteresse á todos os cuidados da profissão que converteu em verdadeiro sacerdócio, a confiança e sympathia que inspira aos doentes faz com que cure muitas vezes sem receituário; deputado, a sua política é tolerante e melíflua, seus conselhos são vincados de alto prestigio moral, pela respeitabilidade do seu caracter, pelo bello cultivo de seu espírito. Os adversários, os mais intransigentes prestam-lhe os devidos respeitos e amisades pelo trato gentil e cavalheiroso, pela nobreza e franqueza do seu modo de agir determinado e seguro, mas sempre digno e correcto. Nessa cidade que elle estremece todos lhe são affeiçoados e muitos conhecem os thesouros da sua alma amantíssima e caridosa (…). (Ernesto Brazílio.)

8) É major reformado da velha-guarda tem condecorações que muito o distinguem (…). É monarchista convencido e acredita estar com a verdade(…).

9) Em sua pátria, a bella pátria de Garibaldi, foi militar valoroso e digno (…). A sua vocação porém, é a pharmacopéa (…). Seus extractos fluidos são incomparáveis, seus preparados chimicos fasem milagres, reconstituem organismos gastos, ressuscitam defuntos (…).(Raspatini.)

10) É coronel honorário, propagandista da guarda nacional (…). Vigia com cuidado que ninguém lhe tome o posto (…). Em eleição é mestre, somma bem, em sua arithmethica eleitoral 4 e 4 fazem dose o que o não
impede, entretanto, de ser cavalheiro gentil e estimável.(Coronel Zamith.)

11) É poeta e bacharel em sciencias jurídicas. Que tenha algum dia um
escriptorio com laca á porta e que seja capaz de ler e arrasoar (…). Entre a teoria de Lombroso ou de Tarde, elle se inclinará de preferência para um soneto de Baudellaire, para uma estrophe de Verlaine, se a rabulice forense perder com esta preterição exultará a sublime arte que elle amorosamente trata e cultiva.
Phisico elancé, toilette a Broummel, palestra adorável, fazem delle um typo de selecção a quem a diplomacia offerece as suas graças e o scenario brilhante de seus triunphos. Tem sido infeliz em certas partidas, as mulheres não entendem a extesia caprichosa do seu temperamento mas sentem a volubidade dos seus (…) cantares.

12) (…) na redação do jornal faz tudo; o artigo de fundo, a chronica humorística, a noticia, com a mesma correcção e com o mesmo critério
(…). A critica theatral do Friburguense é um primor. Sente-se que são escriptas por quem conhece as “chevilles” do palco, os segredos da “mise-en-scène”, por quem em outros tempos foi amador dramático (…). Hoje é guarda-livros (…). Tem um gesto favorito: cofia a barba, uma barba digna à Duque de Guise (…). (Francisco Pinto de Almeida.)


13) (…) é o agente consular da colonia italiana desta cidade (…). Quando não exerce dos difíceis misteres de sua missão patriótica no terreno da diplomacia e da política, vende vinhos italianos (…).
Quando não vende vinhos fecha a porta, põe a espingarda ao hombro, enche o cachimbo de tabaco, um cachimbo do tamanho do Diabo, uma botelha de chiante, abala para o mato à caça e quase sempre mata o bicho-chiante. Quando não vai à caça toma os caniços, a tarrafa, põe mais tabaco no cachimbo e vae pescar lambarys nos afluentes do rio Bengala onde pesca infalivelmente uma garrafa de Falerno. Quando não vai à pesca fica em casa engarrafando vinho, enchendo a cada momento o cachimbo e discorrendo sobre as caçadas, grandes caçadas em que há
sempre salsichas, paios, mortadellas e frascos de chiante. (Maggiorino Massa.)

14) É advogado e lavrador. Convenceu-se de que nesta terra a melhor
cousa que um homem intelligente póde fazer é plantar café, cana, batatas, etc. (…). Foi deputado do Estado (…). Entretanto outr’ora, “ça va sans dire”, foi amador de operetas, horisontaes e de ceias “a lá diable”. Hoje mudou completamente, fez-se bom burguez (…) é um excellente rapaz, jovial (…), de maneiras insinuantes, de palestra agradabilíssima pela cultura litteraria, pela espontaneidade da verve, uma verve faiscante e rubra. De quando em vez, transparece n’elle o antigo bohemio, mas bohemio a Murger, de espírito faceto e coração generoso.

15) É uma das figuras obrigadas do Friburguense. Faz a revisão, a noticia, a paginação do jornal, o seu querido jornal (…). É um bonito moço, elegante, correcto e sympathico, d’ahi o prestigio que gosa entre o eterno feminino que elle presa e se orgulha de possuir as sympathias (…). (Augusto Cardoso.)


16) É italiano (…) filho da cidade de Salermo (…). Começou a mascatear, mas só em roupas, artigo que entende bem (…). Hoje é importante negociante de seccos e molhados, trabalhando sempre, mas sabe viver bem, mora em uma das melhores casas dessa cidade (…). (Giovanni Giffoni.)


17) É de Nictheroy onde foi liberal extremado e é proprietário de um bom estabelecimento de seccos e molhados (…). Proporciona todos os dias agradáveis reuniões nas portas de seu estabelecimento onde concorre o “high life” masculino, impondo-lhes a obrigação de tomarem assento em duras cadeiras. Assiste a essas reuniões onde é proihibido tratar da vida alheia, cedendo sempre a presidência a algum dos concurrentes (…).


18) (…) é distincto engenheiro; na câmara dá sentenças. Traja bem, calça bem talhada, colete elegante e palitó de gola de veludo. Mòra em casa pequena, mas mobiliada com arte e gosto; os moveis representam antiguidade de fidalgo. É bem jovial e tem espírito, conta anedoctas que faz lembrar o primo Bazílio. Propagandista da luz electrica (…). Vae sempre a capital assistir as primeiras representaçõese quando volta faz descripções que muito deleitam os ouvintes (…). (Joseph Lynch.)


O periódico O Beija-Flor também retratava os tipos da cidade numa coluna intitulada “Typos e Typões”, mas com um formato diferenciado que objetivava elaborar uma espécie de charada sobre o perfil de quem se descrevia:

TYPOS E TYPÕES
I
Profissão: Desde o fumo,
passando pela polícia até a Câmara.
Particularidade: Cultiva verde para
colher maduro.
Endereço Postal: No quartinho secreto, dos fundos.
Divisa: Ser chefe dos tribudos “guaranys”.
II
Profissão: Não disputa
o boticão, orador popular e membro de commissões
de bailes e manifestações.
Particularidade: Tudo pela classe.
Endereço Postal: Centro.
Divisa:
O operário é o baluarte das grandes nações.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Accusar por dever.
Particularidade: Fallar pouco, quando deve ser ao contrario.
Endereço Postal: órgão (…).
Divisa: Para olhos que ferem há attenuantes.
(O Beija-Flor, de 13-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Administrador
effectivo e coronel honorário.
Particularidade: Repórter por natureza.
Endereço Postal: Mona (…).
Divisa: Quem não quiser ser lobo não lhe
vista a pelle.
(O Beija-Flor, de 27-10-1895.)

Quanto ao perfil feminino, foi retratado usando-se a personagem de um artista que com a sua palheta pintava os perfis das elegantes senhoras e damas da cidade. “Silhouettes” era uma pequena coluna publicada em francês, em O Friburguense, no período de 26 de abril a 31 de maio de 1896. Segundo o periódico, quando se retratavam tão nobres e elegantes friburguenses, somente o idioma de Racine poderia retratar a donaire, a elegância da elite citadina. O porte, as boas maneiras, o garbo, o bom gosto, todas essas qualidades foram pintadas pela palheta e assinadas por C. Fróes e J. Cardoso, esse último provavelmente o articulista Sousa Cardoso:
Blonde.
Elle a um joli visage de deésse de l’ancienne Mythologie.
Elle posséde une élégance exquise, un physique alancé et vaporeux, une grace de parisienne commen faut. Ses toilettes sont toujours chics, toujours à soi même.

Elle a des yeux bleus profonds, des yeux oú les petits symboles de
l’amour dansent comme dans une pagode indienne.
Elle a une beauté pleine de séduction, de genre de beauté qui tourmente les hommes et fait naitre en eux l’amour. Elle est brune.

Elle a les cheveux noirs, les yeur noirs, un noir
illuminé et doux. Materiellement, elle n’est pas belle.
Elle a dans le visage une expression de doucer delicieuse.
Lá reside le secret de son charme.
Elle este pâle.
Quand elle reprend les couleurs de la santé, il
me semble que ce n’est plus elle.
Quando elle rit, de son rire éternel, je ne puis me
defendre d’une vague mouvement d’hostilité et presque de colére contre son rire. Elle est l’image monote du rire.
(O Friburguense, vários números,
de 1896.).

As mulheres também não foram esquecidas pelo periódico O Beija-Flor:

PERFIS
Eu cá no número próximo
Começarei publicando
O perfil airoso
e brando
Das bellas moças de cá;
Darei o perfil das pallidas,
E das
morenas tão cheias
De bellesa, só as feias
Não terão perfil, olá!
Myosotis.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

Apesar de não descritos pelo fisiologista, também compunham o elenco de figuras conhecidas alguns personagens das classes populares. Entre elas os “tipos de rua”, que faziam parte do cotidiano da cidade, sendo geralmente indivíduos negros, loucos, alcoólatras e provavelmente
egressos da escravidão: "(…) É a consagração indispensavel que prepara o trimpho immortal dos typos de rua, que os faz tão intimamente ligados a uma phase da vida colletiva, a existência de uma sociedade num determinado período histórico". (O Friburguense, “A Perua”, de 12-7-1896.)

O poder constituído, em Nova Friburgo, costumava despachar os negros e crioulos alcoólatras para o hospital de alienados em Niterói e os velhos indigentes para o asilo de mendicidade na capital federal. O delegado de polícia detinha, inicialmente, esses indivíduos na cadeia e aguardava a autorização do chefe de polícia do estado para realizar o traslado. Apesar de muitos terem sido despachados da cidade, alguns resistiram e passaram a fazer parte da paisagem e do cotidiano de Friburgo. Pequenos furtos ou ainda agressões cometidos por essas personagens eram tolerados pelas autoridades locais. Segundo Magali Gouveia Engel (2003, p. 63), no começo do século XX, personagens cujas trajetórias de vida se desenrolavam nas fronteiras entre a loucura, a embriaguez, a mendicância e a vadiagem conseguiram preservar as vivências e convivências proporcionadas pela liberdade das ruas.

Freqüentemente, os negros eram objetos das brincadeiras e escárnio por parte da população. Havia em Friburgo o “tenente maluco”, que, do meio-dia em diante, ameaçava quebrar a “cuia” de quem passasse por ele. Já o negro “Roão”, quando estava “na chuva”, ou seja, bêbado, despejava um turbilhão de palavrões.147 O articulista queixava-se: “Ou elle ensaboie a lingua ou raspe-se do logar.” “Tiny” era a alcunha de uma célebre crioula de nome Joaquina de Jesus, que costumava roubar roupas e frutos dos quintais, levando sempre uma advertência do delegado de polícia. Já a preta Leopoldina, que atacava geralmente crianças na estrada, ferindo-as, era mais temida e levava bons sopapos e cachações do delegado, quando detida. Uma outra mulher preta que dizia chamar-se Margarida, e que o vulgo mudoulhe o nome para “Coruja”, servia de joguete da molecagem. Por ela não concordar com essa mudança de nome, uma torrente de palavras que, segundo O Friburguense, “a moral repugna reproduzir” era proferida, aumentando ainda mais a gaiatice da rapaziada. “Não haverá quem ponha cobro a isso?”, cobravam os mais moralistas no editorial de O Friburguense de 25 outubro de 1891.
Como disse, os tipos populares eram quase sempre mulheres e homens negros, provavelmente loucos em razão das sevícias da escravidão, cuja extinção era ainda recente.
É significativo que os negros sempre tivessem alcunha, como o preto Vicente da Silva Barros, vulgo “Roão”, e que, por mais que lutassem para adquirir uma identidade, com nome e sobrenome, acabavam sempre sendo reconhecidos por seus apelidos (O Friburguense,
de 31-5-1891.)

A preta Margarida, ou “Perua”, como era conhecida, nome dado pela molecada, era o tipo mais popular da cidade. “Perua” já não se irritava mais com a alcunha que lhe haviam dado e passava requebrando o corpo, envolto em um xale, e arrastando os chinelos. De luneta acavalada sobre o nariz adunco, lápis e papel nas mãos rascunhando caracteres ininteligíveis e bramindo alto, pintava a saracura, numa[ fúria de histeria inofensiva, com terríveis predições apocalípticas. Na estação ou na porta da igreja, a molecada gritava: “Perua! Perua!” Era o grito constante e, por onde ela aparecesse, formava-se logo uma roda. Havia os que a admiravam, os que a provocavam para rir de seus arremessos à garotada e aqueles curiosos em ouvir suas previsões e imprecações de desgraças para o futuro. “Perua” era vista arrastando-se, beijando e chorando o lajedo dos adros da Igreja-Matriz. Nesse momento, comovia os transeuntes mais piedosos, na sublime e dolorosa austeridade da sua religião de histérica. Após a penitência, seguia sob um coro de gestos e apupos, já fazendo parte do cotidiano da cidade a flânerie da jovem preta Margarida. No rosto, sempre a expressão alucinante, ouvindo revelações da outra vida, tão inofensiva na sua demência, tão desgraçada na sua vesânia. Heranças da escravidão.


Fonte: Extraído do livro "O Cotidiano de Nova Friburgo no final do século 19> Práticas e Representação Social".

O COTIDIANO DO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO 19: TIPOS CARIOCAS.






FAMÍLIA SPINELLI


Quando comecei a escrever em A VOZ DA SERRA intitulei a coluna de história e memória. História, por tratar das fontes tradicionais e memória para resgatar os acontecimentos do passado, narrada por indivíduos que foram testemunhas ou partícipes da história local.
A partir da segunda metade do século XIX, houve uma significativa imigração de italianos para Nova Friburgo. Entre as inúmeras famílias que migraram estavam os Spinelli, originários de Verona, a romântica cidade que serviu de ambientação da peça de Shakespeare, Romeu e Julieta. Os timoneiros desta família foram Luiz e Marieta Zuanazzi Spinelli, que chegaram ao Rio de Janeiro em 13 de janeiro de 1889 e depois de trabalhar algum tempo para o Barão de Duas Barras, em Cantagalo, migraram para a florescente Nova Friburgo. Recordemos, entre 1881 e 1913, imigraram para o Brasil mais de um milhão e seiscentos mil imigrantes, sendo boa parte deles constituída por italianos.


Luiz Spinelli trabalhou inicialmente em serviços de aluguel de carroças, limpeza pública e na construção civil, tendo inclusive participado da edificação do palacete do Barão de Duas Barras, hoje Faculdade de Odontologia, nas obras do Colégio Anchieta e do pavilhão de caça do Visconde de Nova Friburgo, atualmente Sanatório Naval. Seu primeiro estabelecimento comercial foi uma padaria, a padaria Spinelli, hoje padaria Suíça. A partir de então, Luiz Spinelli, já auxiliado pelos seus onze filhos, fez com que os negócios da família Spinelli crescessem vertiginosamente até tornar-se um grande holding em Nova Friburgo.


Os Spinelli foram proprietários de uma grande loja de departamentos, que funcionava no térreo do atual edifício Spinelli, na Praça Getúlio Vargas. Este prédio, o primeiro edifício da cidade, foi construído onde funcionava o outrora resplandecente Hotel Salusse. Vendiam na loja automóveis, material de construção, eletrodomésticos e tudo que a modernidade oferecia à época, como os primeiros aparelhos de rádio, geladeira e televisão. Dizia-se à época que se alguém fosse casar-se, os Spinelli forneciam tudo. Construíam a casa, faziam os móveis, vendiam os eletrodomésticos, enfim, forneciam tudo.


Os Spinelli possuíram o primeiro automóvel em Nova Friburgo e foram representantes da Ford, além de diversificarem seus negócios no ramo da carpintaria, transporte de cargas e passageiros e agropecuária. Foram os pioneiros na viação em Friburgo. A propósito, os Spinelli foram pioneiros em tudo. Trouxeram para Friburgo na década de quarenta o primeiro avião bimotor para transporte de passageiros. O campo de pouso situava-se onde hoje se localiza o Batalhão da Polícia Militar. Um serviço em que estamos hoje muito longe alcançar, Friburgo já o tinha no século passado.


De acordo com o Sr. Nelson Spinelli, Nova Friburgo cresceu junto com os Spinelli. Impulsionaram as atividades de comércio, serviços e agronegócios na cidade, além de participar das atividades culturais, auxiliando os clubes sociais, como o Xadrez, modalidades esportivas, como o futebol, e o que foi mais importante, colocando Nova Friburgo na vanguarda em tudo que a modernidade oferecia nos primeiros anos do século XX.


Indubitavelmente, pode-se afirmar que o progresso de Friburgo coincide com o crescimento dos negócios dos Spinelli, de forma que se torna impossível separar a urbanização da cidade de um dos seus principais atores: a família Spinelli. Fonte: Entrevista com o Sr. Nelson Spinelli.







O IMPOSTO DE SANGUE: A Imigração Alemã – Parte 2



"Família do Fuzileiro Naval" (ca.1938).
Pintura de Alberto da Veiga Guinard(1896-1962)
nascido em Nova Friburgo.

A independência do Brasil, em 1822, criou um foco de tensão entre o Brasil e Portugal. O Brasil sofreu algumas investidas militares por parte de Portugal e só não sucumbiu porque as finanças de Portugal e a crise política interna não permitiam uma guerra contra a independente nação. O temor da recolonização dominava o espírito público da época. Portugal somente viria a reconhecer a independência do Brasil em 1825. A Guerra da Independência nem havia começado e os alarmantes boatos de que Portugal estava mobilizando uma colossal expedição punitiva, para neutralizar as veleidades separatistas dos brasileiros, não deixavam o Imperador D. Pedro I dormir sossegado. D. Pedro I procurou se preparar para a iminência de uma guerra entre o Brasil e Portugal. As províncias do nordeste apoiavam a Metrópole e o movimento separatista ameaçava desmembrar essas províncias do país. O movimento republicano em Pernambuco recrudescia. Não bastasse isso, havia a iminência de um conflito armado contra as Províncias Unidas do Rio da Prata(Argentina) pela conquista do Uruguai. A solução para a Questão Cisplatina projetava-se como eminentemente militar e a guerra acabou ocorrendo no período de 1825 a 1828. Com todas essas tensões envolvendo questões externas e internas, D. Pedro I voltou sua atenção para as Forças Armadas legadas de seu pai, D. João VI. Foi uma decepção. As tropas brasileiras não passavam de milícias mal armadas e indisciplinadas e os oficiais, todos portugueses, não gozavam da confiança de D. Pedro I.

A história do recrutamento no Brasil e a obrigação de servir nas Forças Armadas, o imposto de sangue, não fosse trágica, seria cômica. A maior parte era de recrutas da Armada forçados na base do “pau e da corda”. Vagabundos e delinqüentes sempre foram alvo predileto das autoridades encarregadas do recrutamento militar. Quando o governo necessitava recrutar, esperava pelas festas religiosas e pegava na rede uma enorme quantidade de rapazes que inocentemente se divertiam nos folguedos. Muitas vezes, promoviam maviosas retretas nas praças para atrair o povo e tão logo a rapaziada chegava para saber o motivo da festa, uma patrulha, até então escondida, caía-lhes em cima, e na base do pau e da corda, despachavam os rapazes para os quartéis do Rio de Janeiro. Em Nova Friburgo, por ocasião da Revolução de 30, foi dissimulada uma partida de futebol, no Campo do Friburgo, onde se objetivava, tão somente, arregimentar recrutas. Nessa ocasião, ao invés da lembrança de um divertido jogo de futebol, o que alguns rapazes levaram para casa foi um uniforme para lutar junto as forças legalistas lideradas em Friburgo por Galdino do Vale Filho.
Retornando ao século 19, há registros de que os recrutas eram conduzidos acorrentados, manietados em grupo, como se fazia com os escravos, até o Rio de Janeiro, e isso sem receber qualquer alimentação. Os mais rebeldes eram conduzidos com gargalheiras, uma coleira de ferro com uma pua, a mesma utilizada em escravos fujões. Uma escolta os seguia armada até os dentes, e vez por outra baixavam o cacete nos mais desaforados. Chegando ao Rio de Janeiro, os escravos saudavam com ensurdecedoras zombarias os desgraçados recrutas. Muitos eram provedores de família, o que gerou reclamação junto ao governo. Para tanto, passaram a ficar isentos, ao menos teoricamente, agricultores, carpinteiros, tropeiros, etc. Escravos libertos eram o alvo predileto dos recrutadores para formar o Batalhão de Pretos Libertos. Com o Exército e a Marinha competindo nessa surrealista busca de homens para seus quadros, não era de admirar que em determinados momentos não houvesse mais vagabundos, delinqüentes ou negros forros nas vilas e cidades brasileiras. As Forças Armadas eram temidas devido aos castigos corporais, extremamente cruéis, onde o chicote corria solto a qualquer desvio de conduta de um soldado. A punição aplicada era de centenas de chicotadas diante da tropa formada.

João Cândido Felisberto, o "Almirante Negro", na Revolta da Chibata ocorrida em 1910. Trata-se de uma revolta contra os açoites instituídos pela Marinha Brasileira em caso de falta disciplinar dos marinheiros.

O ethos militar tem na hierarquia e na disciplina os seus pilares, mas no Exército brasileiro de antanho a disciplina era algo ainda incipiente. Não havia qualquer tipo de instrução, exercícios militares ou manobras. A tropa passava anos sem disparar um só tiro. A cachaça era consumida o dia inteiro nos quartéis. Um mercenário alemão descreveu um batalhão composto por soldados brasileiros como verdadeiros mondrongos:

“O aspecto de um destes batalhões brasileiros de linha, com seus grotescos fardamentos de gala(...)com as suas bandas de música mascaradas de hussares e ulanos, ricamente agaloadas, era na realidade, tão peculiarmente cômico, que nos relembra os teatros de títeres e as estampas coloridas do tempo de nossa infância. Aqui perfila-se um negro, com a sua chata e inexpressiva fisionomia africana, entre um feio mulato amarelo e um índio acobreado(...) De quando em quando observa-se na fileira um brasileiro pálido e franzino. A todos, porém, falece igualmente o garbo marcial, a atitude e o desenvolvimento físico que caracterizam o soldado europeu. Homens altos e baixos, velhos e moços, indivíduos esbeltos e outros curvados pelo antigo labor de escravo, formam ali uns ao lado dos outros, na mesma fila. E entretanto, estes chamados soldados são admiráveis em suportar privações, quer em marcha, quer acampados. Possuem uma rijeza de corpo, uma taciturna e indolente docilidade, e uma sobriedade em comer e em beber, que os habilitam a transpor, como carregadores, as vastas paragens desertas da América Meridional, sem que jamais lhes ocorra indagar para onde são conduzidos, ou porque motivo real têm de marchar.” Diante dessa conjuntura, o Imperador D. Pedro I voltou sua atenção para a contratação de mercenários para a garantia de seu vacilante trono. Na próxima matéria “A Busca por Mercenários Alemães."



Segue uma entrevista dividida em três partes sobre a Revolta da Chibata.








Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas

Dentro da estatística fornecida pelo meu blog, percebo um grande interesse pelo tema Escravidão em Nova Friburgo. Sugiro então o livro “Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas” de Jorge Miguel Mayer e Edison Lisboa, cuja resenha feita pelo Prof. João Raimundo, como segue abaixo, nos mostra o que representa essa obra. Boa Leitura.



HISTÓRIA REGIONAL E ESCRAVIDÃO
João Raimundo de Araújo
Titular de História do Brasil da FSD
Dr. em História Social pelo PPGH-UFF
LISBOA, E. de C.; MAYER, J.M. Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas – Um
estudo sobre a escravidão em Nova Friburgo no século XIX, Nova Friburgo: Marca,
2008.




O crescimento da pesquisa histórica no Brasil a partir do desenvolvimento dos cursos de pós-graduação desde o último quartel do séc. XX tem trazido interessantes resultados, seja na revelação de fontes, ou na produção de novos e enriquecedores estudos historiográficos. Este é o caso da obra em questão. Acrescente-se ainda o fato de tratar-se de uma pesquisa que se enquadra perfeitamente nos pressupostos da chamada História Regional. Um trabalho de pesquisa nos arquivos do Cartório do 2º Ofício do município de Nova Friburgo possibilitou adescoberta de um processo criminal de 1850, que tratava de um conflito entre feitores e escravos da Fazenda “Ponte de Tábuas”, localizada nas proximidades do atual distrito de Conselheiro Paulino. A importância da descoberta desta fonte transcende os limites do município, já que, sem dúvida alguma, trata-se de interessantíssimo documento para o estudo da escravidão brasileira em geral e, não menos importante, para o estudo da escravidão na Vila de São João Batista de Nova Friburgo. Durante longos anos, alguns intelectuais encarregados de escrever a história oficial de Nova Friburgo perseguiram o lema da criação da “Suíça Brasileira”, a partir da chegada dos imigrantes suíços no início de 1820. Tratava-se de uma colônia criada por um decreto Real (16 de maio de 1818) e que seria responsável pela implantação, em plenos trópicos, de uma comunidade baseada na pequena propriedade e na predominância do trabalho de homens e mulheres livres. Desse modo, a escravidão negra, que se alastrou por áreas rurais e cidades do Brasil, não caracterizaria a colônia dos suíços em Nova Friburgo. Entretanto, a criação, nos anos 80, de um grupo de pesquisadores oriundos do meio universitário - Departamento de História da UFF e da Faculdade S. Doroteia - baseados nos pressupostos da História como “ciência em construção” veio a mudar radicalmente o rumo dessas questões, estimulando a pesquisa de fontes históricas e a elaboração de teses, dissertações e monografias sobre Nova Friburgo. Ressalte-se o pioneirismo da obra A Gênese de Nova Friburgo, do historiador suíço Martin Nicoulin, publicado pela Editora da Biblioteca Nacional, redefinindo o debate sobre as origens, a história e a construção colonial de Nova Friburgo.
A obra que ora resenhamos insere-se nesse contexto de revisão em torno das origens e - por que não? - da própria História e é, sem dúvida, parte importante desse novo olhar, criador de uma nova identidade percebida pelos historiadores a partir dos
anos 80.

O trabalho de Edson Lisboa (licenciado em História pela Faculdade S. Doroteia de Nova Friburgo) e de Jorge Miguel Mayer (Professor Associado do Departamento de História da UFF, Doutor em História pelo PPGH-UFF) estuda um processo criminal relativo a uma violenta revolta de escravos, ocorrida no ano de 1850, na Fazenda Ponte de Tábuas, de propriedade do Comendador Boaventura Ferreira Maciel, em Nova Friburgo. A descrição do fato com riqueza de detalhes é, antes de mais nada, revelador de um processo de luta de classes, não faltando até mesmo o assassinato do feitor, de dois trabalhadores da fazenda, e a espetacular fuga de um significativo número de cativos.

A princípio, o livro conta com um Prefácio elaborado pelo historiador Ciro Flamarion Santana Cardoso, que efetua uma interessante discussão teóricometodológica em que confronta os historiadores que veem a História a partir de uma visão de Totalidade, com os pós-modernos cujos trabalhos não chegariam ao centro das questões. Esta obra, além da contribuição para os estudos regionais é, também, uma contribuição para os estudos baseados na Totalidade histórica.
O 1º capítulo, intitulado “Contribuição ao Estudo da Escravidão” constitui um conjunto de argumentos ressaltando o valor desse tipo de estudo baseado em fontes como inquéritos e processos criminais. Neste caso, a contribuição se faz ainda no que tange ao aprofundamento de questões que valorizam os estudos regionais.

O 2º capítulo, intitulado “A Fuga e o Processo” trata da exposição de relatos constantes nos autos – a fonte histórica -, onde são percebidas as vozes dos protagonistas do fato. As perguntas formuladas à fonte constituem subdivisões do capítulo e revelam os motivos causais bem como a lógica dos crimes e da fuga dos escravos. O leitor desta parte da obra passa a ter noção clara da violência estrutural do regime escravocrata em geral e, especificamente, como essa violência se fazia no cotidiano dos escravos desta fazenda através das ações, sem limites, dos agentes dos
proprietários. Neste caso, a reação dos escravos revela também um alto grau de violência comprovado nos trechos relativos aos depoimentos dos legistas encarregados dos exames de corpo de delito. É importante ressaltar, neste capítulo, o trecho referente ao subtítulo “Raízes do Conflito”, onde o leitor pode concluir que os crimes e a fuga dos escravos são respostas possíveis à manutenção do sistema desumano e hediondo representado pelos três séculos de escravidão no Brasil.

O 3º capítulo, “Inquérito sobre a escravidão em Nova Friburgo” é menos descritivo, porém bem mais analítico que o capitulo anterior. Nele, os autores revelam preocupação no sentido de conhecer e entender a escravidão negra no seu contexto temporal e espacial. A presença da escravidão negra em Nova Friburgo é uma verdade inquestionável, mesmo que a vila tenha sido a princípio colonizada por imigrantes suíços. Os elementos básicos de um sistema montado numa economia agrária e escravocrata não sofreram alterações profundas mesmo numa realidade de pequenas e médias propriedades dedicadas à policultura. Efetivamente, a presença dos colonos
suíços e alemães não foi capaz de mudar mais profundamente o quadro da escravidão na antiga região da fazenda do Morro Queimado. Helvéticos e germânicos, na verdade, adaptaram-se ao mundo da escravidão, revelando absoluta incapacidade de transformálo em sua essência.
A edição do livro “Os crimes da fazenda Ponte de Tábuas” tem enorme importância para os estudos relativos à História Regional/Local, dando visibilidade à existência da escravidão negra em Nova Friburgo, fato negado por alguns escritores do município. Consideramos ainda que o trabalho dos historiadores Lisboa e Mayer constitui-se de maior valor, por revelar uma fonte inestimável para todos aqueles interessados em estudar o passado para melhor compreender o presente, objetivando mudá-lo. Trata-se ainda, de um livro muito bem escrito, de fácil compreensão e que certamente se destina a um público não apenas da academia, mas a todos curiosos e interessados em nossa História.
Vale muito conferir.



A PRISÃO E FUGA DOS MERCENÁRIOS: A Imigração Alemã – Parte 1

Nova Friburgo por Jean Baptiste Debret. 1825.


Era o dia 12 de fevereiro de 1825, quando um grupo de cinco soldados mercenários alemães, acorrentados uns aos outros, passou pela pacata vila de Nova Friburgo, despertando a atenção dos moradores. Acusados de deserção e presos em Cantagalo, eram transportados por praças sob o comando de um sargento, que os conduzia ao Rio de Janeiro. Na vila, fizeram uma pequena parada no quartel e curiosamente a partir de então passaram a ser seguidos por um colono alemão chamado Heinrich Bourgignon. De repente, ocorre algo estranho quando o grupo passa pela “vilagem dos alemães”. O sargento que comandava o grupo retira as correntes dos mercenários, que debandaram logo em seguida. Bourgignon então tem a sua prisão decretada por um praça e um verdadeiro imbróglio se arma na pacata vila de Nova Friburgo. O que teria ocorrido naquela ocasião?
Para esclarecer os fatos foi realizado um Termo de Inquirição conduzido pelo capitão-mor de Cantagalo, Manuel Vieira de Souza, com a oitiva de duas testemunhas. O primeiro depoimento foi de José Francisco de Azevedo, homem pardo, 29 anos, carcereiro da cadeia de Cantagalo e condutor de um outro grupo de presos. Sendo-lhe perguntado sobre a fuga dos cinco desertores, assim declarou: “...disse ter presenciado, de longe a foragida, por estar de guarda aos outros presos que iam em diferentes correntes e que, do lugar onde estava, vira o sargento encarregado dos presos entrar com os desertores em uma casa e logo que saiu com eles, lhes meteu a chave no cadeado da corrente. E os presos, vendo que estava o cadeado aberto, fugiram. E antes de ele sargento ter aberto o cadeado, tanto ele, testemunha, como os outros condutores, gritaram em altas e inteligíveis vozes que, em nome de Sua Majestade Imperial, requeriam que não abrisse ele, sargento, o cadeado(...) a causa de o terem prendido[refere-se a Bourgignon] foi por ele, colono, acompanhar os presos do quartel até aquela Vilage e que assistira sempre[ilegível] os presos até a soltura que fez o dito sargento(...) ele testemunha, desconfiando que ele tinha ajudado a dar soltura aos presos, foi prendê-lo à ordem de Sua Majestade Imperial.”
No segundo depoimento, Eusébio Baptista Coelho, homem preto, 30 anos, pedreiro, natural de Cantagalo e condutor dos mercenários ao Rio de Janeiro, declarou ao capitão-mor: “...ele, testemunha, veio sempre desde Cantagalo até o momento da fugida dos presos feito guarda dos desertores e que, por várias vezes, o sargento-comandante, encarregado daquela leva, os tinha soltado para mudar os braços e nunca os presos fizeram a mais pequena resistência para fugirem e logo que eles chegaram ao quartel desta vila, introduziu-se um dos colonos [Bourgignon] a falar sempre com os presos e este seguiu os presos, do quartel até a Vilage de Cima e logo que ali chegaram um dos presos desertores, não quis dali passar dizendo que não podia ir descalço, e tendo o sargento deixado entrar em uma casa para calçar uns sapatos, onde estiveram pouco tempo e depois de terem saído para fora da porta, principiaram a rogar ao sargento que lhes mudasse as correntes para o outro braço...”

O depoimento das duas testemunhas deixa uma margem de dúvidas se teria havido conluio ou não entre o sargento e o colono alemão Bourgignon. Heinrich Bourgignon, 23 anos, era natural de Hessen e chegou ao Brasil em 1824, no navio Argus, como mercenário. Porém, não serviu nas Forças Armadas. Era comum se corromper as autoridades brasileiras, conseguindo a isenção do serviço militar e ficando enquadrado na classe de colono. Foi o que provavelmente ocorreu com Bourgignon. Localizamos o nome dele no site “Acervo Design - os Alemães Pioneiros de Nova Friburgo”, constando nesse documento uma espécie de ficha policial de Heinrich Bourgignon, que o descrevia como “hábil rapaz, mas precisa ser vigiado”. Coincidentemente, Bourgignon viajava muito a Cantagalo, logo, deve ter acoitado seus colegas mercenários naquelas paragens. Teria havido negociação para facilitar a fuga dos soldados entre o sargento e Bourgignon?

Nova Friburgo em 1830.

Era natural a camaradagem entre os soldados mercenários e Bourgignon era um deles. Afinal, a punição, à época, para os desertores, compreendia na aplicação da pena em torno de 200 chibatadas, mais as despesas que arcavam de sua própria captura. Considerando que Bourgignon provavelmente se utilizou de suborno para não servir nas Forças Armadas, pode ter subornado igualmente o sargento, responsável pela escolta. Por outro lado, Bourgignon era descrito como um homem “hábil” e pode ter ludibriado o sargento, que ingenuamente mais uma vez abriu as correntes para mudá-las de posição no braço dos prisioneiros, como vinha fazendo desde Cantagalo. Esse Termo de Inquirição encontra-se na caixa 08 do Centro de Documentação D. João VI, mas não foi localizada a conclusão desse inquérito. No entanto, não nos interessa se o sargento e Bourgignon estavam mancomunados ou não. A pergunta mais intrigante nesse episódio é a seguinte: Quem eram esses mercenários alemães que fugiram para Cantagalo? De onde desertaram e por quê? Por que o Brasil teria mercenários alemães nas Forças Armadas, no Primeiro Reinado? É sobre essas questões que narraremos, em dez matérias, um dos mais interessantes episódios de nossa história envolvendo soldados e colonos germanos, que culminou com a vinda, em 1824, de imigrantes alemães a Nova Friburgo.
Continua com matéria "O Imposto de Sangue”.

DO ENTRUDO MOLEQUE ÀS ESCOLAS DE SAMBA: Breve História do carnaval de Nova Friburgo



Carro da Batalha das Flores em Nova Friburgo



A primeira referência de carnaval em Nova Friburgo pode-se aferir do Código de Posturas de 1849, em seu art.137: “É absolutamente proibido o jogo denominado entrudo”. O entrudo é um antigo folguedo carnavalesco em que os foliões molhavam-se reciprocamente lançando água de baldes ou limões-de-cheiro ou então atiravam farinha numa espécie de batalha. Limões-de-cheiro ou laranjas-de-cheiro era o nome pela qual eram chamadas as pequenas bolas de cera recheadas de água perfumada. Apesar da proibição, pode-se constatar que o entrudo ainda era praticado em Nova Friburgo até o final do século 19, inclusive pela elite. Já no final desse século, o carnaval em Nova Friburgo era bem movimentado devido ao grande número de veranistas na cidade. Havia desfile de carruagens ricamente adornadas por motivos alegóricos cujo préstito percorria as ruas do centro da cidade. Havia ainda o desfile de carruagens da Batalha das Flores.


Eram carruagens ricamente adornadas de flores como camélias, orquídeas, rosas, etc. onde a elite local e veranistas, a exemplo da família de Rui Barbosa, desfilavam com garbo e elegância pelas ruas da pitoresca Nova Friburgo. Alegres foliões em retumbantes Zé-Pereira percorriam as ruas da cidade, atordoando os ares num zabumbar infernal com seus latões de querosene e gritando “formidolosamente” com todas as forças de seus possantes pulmões. O grande barato do carnaval oitocentista era manter-se no anonimato sob as máscaras e disfarces nos três dias de folia e aquela pergunta que ninguém agüentava mais ouvir depois dos folguedos carnavalescos: “Você me conhece”? Muitos vernistas que possuíam residências em Nova Friburgo abriam seus salões na segunda-feira, único dia em que não havia bailes nos hotéis, para folias petit comittèe. Dizia-se à época: “enquanto descansa-se…folga-se”. Ou seja, no dia em que se descansava dos bailes dos hotéis, se folgava nos bailes particulares.


Outrora prevalecia no carnaval a espirituosidade: Ia-se às ruas para ver e ouvir a “idéia e a pilhéria”. Eram críticas aos serviços públicos municipais como a distribuição de água, a iluminação precária, a sujeira das ruas, etc. Os rapazes que amavam a troça e a alegria, cheios de fina verve, preparavam-se para dar um “sortão” medonho nos três dias de carnaval. Até as marchinhas, a crítica social prevaleceu nas letras carnavalescas, mas depois passou a ser substituída por outros temas. Os cordões surgem a partir da segunda metade do século 19. Eram formados por grupos de foliões mascarados com feições de velhos, palhaços, diabos, reis, rainhas, índios, baianas, entre outros, conduzidos por um mestre e obedecendo a um apito de comando. Parecem ter sido cordões ao final desse século, em Nova Friburgo, os “Dominós Espirituosos” e “Caninhas Verdes”. Posteriormente, os cordões passaram a se denominar blocos e outros se transformaram em ranchos.



Na primeira metade do século 20 se percebe que o eixo dos três dias de folia girava em torno dos blocos. Passistas eram chamadas de “bailarinas”. Havia inúmeros blocos na cidade como “Manda quem pode”, “Quem e quais são eles”, “Sossega Serpente”, “Bloco do Boi”, “Mamãe eu quero”, “As Camisas Azuis”, “Bloco dos Abandonados”, “Os Leões da Avenida Quaresma”, “Alegres Foliões”, “O Palhaço quem é?”, “As Baianas do Hotel Roma”, “As 60 mortes”, “Lá vem ela chorando”, “A Lyra da Mocidade”, “Eu sou do Amor”, além dos blocos dos hóspedes dos hotéis. Oficiais e marujos do Sanatório Naval davam um show de evolução nos folguedos carnavalescos de Nova Friburgo com o bloco “Sossega Leão”. Há o registro de pelo menos dois ranchos: “Quem é bom não se mistura” e “As Estrelinhas”. Havia a competição entre eles nas seguintes modalidades: música, harmonia, canto, orquestra, conjunto, “maior número”[de componentes], evolução, elegância, estandarte, fantasia, enredo e “orientação”.


Há referência da existência do “corso” em Nova Friburgo. O desfile de carruagens enfeitadas com motivos florais é substituído por automóveis sem capota. O corso eram os passeios das sociedades carnavalescas numa tentativa de se reproduzir a Batalha das Flores. Como na Batalha das Flores, ao se cruzarem, os ocupantes dos veículos lançavam uns nos outros confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfume. Como o automóvel era na ocasião restrito a muito poucos, não aparece em todos os carnavais de Nova Friburgo.




Acima: O Corso no Rio de Janeiro


Quando se inaugura na cidade os clubes de serviço como o Clube do Xadrez, Clube dos 50, a Sociedade Alemã de Nova Friburgo(depois SEF) e o elitista e seleto Country Club, o gret attention dos bailes carnavalescos da elite friburguense passa a ser nesses clubes. Outrora, os bailes carnavalescos eram realizados nos grandes hotéis da cidade como o Hotel Engert, o Hotel Central e o tradicional Hotel Salusse. Os bailes populares eram igualmente promovidos pelas sociedades musicais. Nos dias atuais, os bailes nos clubes de serviço decaíram vertiginosamente. Atualmente, os blocos compartilham com as escolas de samba o eixo principal no carnaval de Nova Friburgo. Os ranchos foram substituídos pelas escolas de samba. Na realidade, o rancho tem a mesma estrutura de uma escola de samba, sendo que a única diferença é que o rancho tem um ritmo mais lento. As pastorinhas, mocinhas recatadas que desfilavam nas escolas, foram substituídas pelos corpos desnudos das passistas, onde seios e nádegas são expostos em um exibicionismo catártico, simbolizando as pombagiras da religião africana, como definiu o antropólogo Roberto da Matta.


As pastorinhas




Infelizmente, a coreografia das escolas de samba eclipsou a figura do passista, aquele que tem o “samba no pé”. Oriundos em sua maior parte das classes populares, sambistas e passistas realizam os jogos de inversão hierárquica em relação às elites nos dias de carnaval. Concentram a atenção da sociedade em torno de si e se esmeram em tornar-se dominantes, os verdadeiros reis da folia. E SÃO!

Abaixo ilustrações do Entrudo:










Ilustrações do Carnaval na primeira metade do século 20. Paris, França.





Crédito da foto da Batalha das Flores: Acervo Castro.





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