A PRIMEIRA ENCHENTE DA VILA DE NOVA FRIBURGO





















Desde a fundação da vila de Nova Friburgo que as enchentes do Rio São João das Bengalas sempre fizeram parte do cotidiano de seus habitantes. O cemitério, outrora localizado onde é o prédio da Maçonaria, na Rua Sete de Setembro, foi alterado devido aos inconvenientes das enchentes periódicas. Passada a enchente, os cadáveres ficavam expostos após o rebaixamento das águas provocando constrangimento entre a população e por isso, foi transferido para a parte alta da cidade, onde atualmente se localiza. As enchentes provocavam extensas formações de pântanos e acreditava-se à época que doenças como a “febre dos pântanos” ou “febres palúdicas” e a febre amarela eram provocadas pelos miasmas deletérios e palúdicos que se desprendiam de águas estagnadas. É intrigante que mesmo com as enchentes periódicas na estação das chuvas, provocando danos materiais, a vila se desenvolveu no entorno do Rio Bengalas onde foi estabelecido o comércio, as melhores residências, as praças, enfim toda a atividade urbana se fixou nas proximidades do rio. Se os vereadores sabiam do inconveniente das enchentes periódicas do Bengalas, porque o núcleo urbano não se estabeleceu mais distante dele? A Câmara Municipal concedia terrenos que lhe pertencia a particulares, estimulando a construção na vila. A maior parte desses terrenos estavam localizados onde hoje é o centro da cidade. Os beneficiários que recebiam esses terrenos eram obrigados a construir em determinado prazo, pagando em contrapartida anualmente um foro aos cofres públicos. O aforamento era uma forma encontrada para gerar receita, pois os beneficiários pagavam o foro, e no caso de venda o laudêmio, e se constituiu numa das principais receitas da Câmara. É provável que o desenvolvimento da vila de Nova Friburgo se deve a esse estímulo na edificação em terrenos pertencentes à Câmara, denominados de próprios nacionais. O objetivo dessa matéria é demonstrar o impacto das enchentes em alguns momentos da história de Nova Friburgo. Apresento adiante um relato de uma enchente ocorrida na ocasião do estabelecimento dos colonos suíços, no início do século 19, e como desestruturou o núcleo colonial. Já na primeira metade do século 20, a vasta quantidade de imagens fotográficas sobre as enchentes em Nova Friburgo falam por si. Conforme verificamos nas imagens abaixo as enchentes causavam transtornos à população não muito diferente dos tempos atuais.



O problema de Nova Friburgo nos dias de hoje reside muito mais nos desmoronamentos de barrancos e morros em razão da ocupação irregular das encostas. Essa prática foi respaldada pelo poder público ao longo de anos, já que essas residências pagavam IPTU. Dois fatores provavelmente contribuíram para o aumento vertiginoso da população de Nova Friburgo entre o segundo e terceiro quartel do século 20. De um lado, o empobrecimento de municípios do noroeste fluminense, as “cidades mortas”, como disse Monteiro Lobato, onde parte da população emigrou para Nova Friburgo em busca de melhores oportunidades. O segundo fator foi o processo de industrialização sobre a qual passou Nova Friburgo, atraindo boa parte dos habitantes desses mesmos municípios para trabalhar em suas indústrias. A falta de planejamento urbano não é novidade em todas as cidades do país e as favelas do Rio de Janeiro são o que melhor exemplificam a ausência de políticas públicas nesse aspecto. Diante da tragédia de janeiro último me lembrei de uma passagem interessante do livro de Martin Nicoulin, “A Gênese de Nova Friburgo”, que discorre sobre o inconveniente das chuvas de novembro de 1820 a início de 1821. A primeira colheita dos colonos suíços foi um fracasso devido às constantes chuvas e inundações. O desânimo foi geral. Conforme Nicoulin, “durante o primeiro trimestre de 1821, Nova Friburgo vegeta.” Os suíços abandonaram suas datas de terras no Núcleo dos Colonos e retornaram para a vila. Um clima de tensão aumentou entre os colonos suíços culminando com a violência para desespero dos administradores responsáveis pela recém criada colônia de imigrantes estrangeiros. Essa passagem nos faz refletir sobre a relação desse triste episódio de destruição da vila há quase dois séculos atrás e o que ocorreu no dia 12 de janeiro último. Uma sensação de déjà vu. Segue a narrativa do que ocorreu em Nova Friburgo quando da formação do núcleo colonial.

“O início da estação das chuvas será determinante. Em novembro chove. O mau tempo impedirá os colonos de continuarem os trabalhos. As obras da estrada central também ficam paralisadas. Em dezembro, as mesmas condições atmosféricas. Durante esse tempo, observador Porcelet anota: ‘Chegou a notícia inesperada e mais desoladora ainda de que, em várias fazendas dos colonos cuja primeira vegetação tinha oferecido brilhantes esperanças, viam-se a cada dia definhar e morrer as colheitas’. E as chuvas contínuas provocam a catástrofe. As sementes brotaram, mas não haverá colheita. É o fim das esperanças de outubro. A primeira safra será um fracasso.(...) Agora, vêem fracassar sua primeira experiência como agricultores. Desanimados, abandonam as fazendas e voltam para a vila. Mas, com as chuvas, Nova Friburgo apresenta aos colonos um aspecto desolador. A construção do quartel de polícia e do mercado está parada. O Rio Bengala transbordou, as pontes que não foram arrastadas ficaram danificadas. A enchente atingiu as casas. Uma delas, de pedra, que os colonos estavam construindo, desmoronou. As árvores plantadas nas calçadas foram arrancadas. Os riachos tornaram-se torrentes que devastam os jardins. Derrubadas, as cercas são pisoteadas pelos bois, vacas ou porcos. Tudo está inundado. Durante alguns dias, as vias públicas ficam fechadas. Sob as chuvas incessantes e pesadas do verão brasileiro, Nova Friburgo não parece mais uma vila, mas um alagado. Um ano após a chegada[refere-se a chegada dos suíços], apresenta de novo uma paisagem desoladora. O progresso estancou. Parece que tudo tem de recomeçar.
Decepcionados, os pioneiros voltam a morar em suas casas apertadas[as antigas casas construídas na vila para os colonos].(...)Para a maioria é o desânimo. Alguns documentos encontrados demonstram muito bem esse estado de espírito. Os colonos ociosos reúnem-se. A miséria brasileira faz surgirem inúmeras tabernas. O vício nacional característico dos moradores de Fribourg[Suíça] em 1817, no dizer do Conselheiro de Estado Schaller, manifesta-se em Nova Friburgo. Os colonos bebem para matar o tempo e esquecer. Abatidos com o resultado de seu eldorado, procuram no copo de cachaça um paraíso artificial. Em 5 de novembro, Miranda[Inspetor responsável pela Colônia] lastima todas essas bebedeiras; dá ordens enérgicas a seu diretor a fim de que se trabalhe ‘com eficácia por estancar esta fonte perene de desordem na colônia’. O inspetor compreende que a ociosidade pode tornar-se perigosa. A situação social vai-se deteriorando em Nova Friburgo à medida que as fazendas decaem. Em dado momento, os colonos se desentendem, trocam insultos. Chegam às vias de fato; à noite, ecoam tiros de fuzil, há tumultos, estupros; cabeças ensangüentadas por facadas apresentam-se ao médico. Nova Friburgo passa por sua primeira onda de criminalidade. Convém notar que esta se segue ao fracasso da primeira colheita[devido às incessantes chuvas]. É de acreditar que em dezembro a situação fosse alarmante, pois o diretor, receando que ‘sobrevenham catástrofes’, pede demissão. O sonho de Miranda acaba de modo brutal.”
(Nicoulin, Martin, “A Gênese de Nova Friburgo”, 1996, pp.200-201) (grifos meus)




Nova Friburgo: A Colônia Mãe dos Imigrantes Europeus - A Imigração Alemã – Parte 11


Como o espaço não permite observações, seguem trechos da carta do pastor luterano Sauerbronn aos seus parentes na Alemanha. Sauerbronn chegou à Nova Friburgo em 1824, juntamente com os primeiros colonos alemães e nos legou interessantes observações sobre a economia e o cotidiano da vila de Nova Friburgo:


“...Um dia antes da chegada em Santa Cruz, à capital de Tenerife, fomos abordados por um pirata africano que tinha 100 homens e 36 canhões a bordo. A meio tiro de espingarda de distância, os homens do navio pirata carregaram seus fuzis; junto a cada canhão estava um homem pronto a abrir fogo. O pirata com voz horrível, mandou que baixássemos nossas velas. Depois ele se dirigiu a bordo, acompanhado por um único companheiro, ambos vestidos com um uniforme pitoresco. Ele viu nossos rostos assustados de medo e se convencendo que o nosso navio era um pobre transporte de colonos, mudou seu tom; ofereceu-nos frutas como uvas, figos, laranjas, maçãs, como também vinho e aguardente. Após o susto, seguimos a viagem com alegria. Após a nossa chegada a Santa Cruz, soubemos que o mesmo pirata havia capturado um navio mercante um dia antes, em frente aos muros de Santa Cruz. (...)Chegamos ao Porto do Rio de Janeiro após oito meses de nossa partida da Alemanha. Chegamos ao destino em janeiro de 1824 (...) Os colonos chegaram a uma vasta área pertencente ao Imperador, chamada Armação[Niterói] e eu consegui com minha família uma casa excelente com livre alimentação junto a Monsenhor Miranda, Inspetor da Colonização Estrangeira ocupando uma posição de ministro. Ficamos três meses e meio por conta do Imperador e todos em dulce júbilo.



O Imperador e a Imperatriz nos visitaram várias vezes; eram muito condescendentes e conversavam com cada criança. Dia 25 de abril fomos transportados por conta ainda do Imperador para aqui Nova Friburgo, 40 horas distante do Rio de Janeiro. O lugar tem tamanho aproximado de Glanddernheim e consta de prédios pertencentes ao Imperador, prédios de um andar com telhados muito bons, quatro quartos cada um. O piso não é como na Alemanha, em tábuas, mas de palhinha, o que tem muito aqui ou de terra batida, como é na Alemanha o piso dos celeiros. Cada família ganhou uma casa e por ano e meio, diariamente um franco e meio potac por cabeça, o que é suficiente. Durante este ano e meio, cada família é obrigada a cultivar uma parte das terras e lá construir uma casa. Isto torna possível dentro de três meses que novos colonos encontrem moradia. Nova Friburgo é, portanto, a colônia mãe de onde os colonos europeus são distribuídos para outras terras.(...) Os meus correligionários viajam 40 horas, para ver e ouvir o seu Salvador, como eles me chama.(...) os meus filhos estão com boa saúde e os garotos freqüentam a escola do Imperador, com um professor suíço, que foi formado na Suíça, para ensinar os cursos primários e secundário. Eles têm progredido muito nas línguas portuguesa e francesa. Nunca na Alemanha eles aprenderiam em tão pouco tempo. Minha filha Charlotte manda mil abraços; vocês não a reconheceriam mais. Ela cresceu, tornou-se uma donzela e já tem admiradores, mas para alegria do pai continua respeitada. Ela herdou todas as virtudes da mãe.(...)


No verão é muito quente mas o calor é suportável pois dura somente 12 horas por dia, as noites são mais frescas que na Europa. O inverno em Nova Friburgo não é fresco, mas frio, tão frio, tão frio que vi nas partes da manhã até as dez horas uma crosta de gelo na água e não me arrependi de ter trazido da Alemanha uma coberta de penas.(...) Vejo aqui ao lado do cafezeiro[cafeeiro] o que pode parecer impossível mas é a pura verdade. Pés de maçã ao lado de um limoeiro, uma cerejeira ao lado de batatas, deliciosos abacaxis e bananas ao lado de laranjeiras e videiras. Todos os legumes da Europa podem ser encontrados aqui. Temos ainda os produtos que os suíços cultivaram; o milho cresce bem e alimenta homens e animais; batatas de todos os tipos, beterrabas amarelas e brancas. Vê-se aqui o melhor trigo alemão, mas bem mais perfeito. Aveia e cevada não são cultivadas pela preguiça dos suíços. Cavalo, mulas, vacas, bois, suínos, ovelhas, patos, gansos, galinhas, perus e pombos se encontram de muito boa qualidade; todos são alimentados com milho. O gado se encontra todo o ano nos pastos e retorna normalmente duas vezes por dia à casa do dono para ganhar mãos de milho. A carne de boi não é tão boa como na Alemanha, mas a carne de porco é bem melhor e mais vigorosa; a de carneiro é pouco consumida, pois é tido como pouco saudável; a carne das aves é muito melhor do que na Alemanha. Caça exista aqui de várias espécies, mas muito menos do que na Alemanha, pois os animais selvagens se retiram das regiões cultivadas para o mato, onde não podem ser seguidos. Animais ferozes perigosos para o homem não existem e as cobras que causavam o maior medo à nossa chegada são muito raras. Eu vi até aqui agora somente duas; elas estão fugindo dos homens. Só morde se são pisadas, mas existem remédios infalíveis. A videira se desenvolve bem aqui na colônia, mas os suíços somente a cultivavam em pomar. Todo o vinho consumido aqui provém da França e de Portugal; a cerveja é importada da Inglaterra. Até agora, ninguém tentou fazer cerveja aqui [Em 1861, Pedro Gerhart abriria em Friburgo a primeira fábrica de cerveja]. Ela é mais cara que o vinho, mas é muito consumida na capital. A bebida principal de todos os brasileiros é a cachaça a qual é destilada de cana e laranja e é muito barata. A garrafa vale 12 kronen. Esta bebida deve ser apropriada para este clima.


Cada brasileiro tem normalmente algumas mulas e cavalos. Por falta de estradas tudo tem que ser transportado nas costas. Somente perto das cidades existem vias transitáveis. Todo resto são picadas ou atalhos que passam muitas vezes em cima de pedras grandes, mas facilmente vencidas pelas mulas e cavalos. Se os brasileiros têm de andar somente uma distância de 200 pés, montam a cavalo e andam galopando. As mulheres de todas as classes também montam a cavalo como os homens e vocês iriam ficar admirados vendo a minha Charlotte montar os meus dois garanhões.(...)Caso possam trazer 2 mil gulden[dinheiro alemão] vocês ganharão numa distância pequena de seis horas a Nova Friburgo fazendas já cultivadas, com gado e tudo que é necessário para viver; fazendas parcialmente plantadas as quais com o auxílio de dois escravos que aqui fazem tudo, dentro de um ano podem ficar completamente cultivadas. Eu conheço e forneço essas fazendas aqui em Nova Friburgo. Não nos falta nada, somente mãos para trabalhar. Por isso, quanto maior a família, mais rica ela será.” Nova Friburgo, 10 de setembro de 1824."




Fotos de imigrantes alemães do sul do país. Fonte: Blog "Memória do Povo alemão".

NOTICIAS DA COLÔNIA ALEMÃ EM NOVA FRIBURGO: A Imigração Alemã – Última parte


As fases dos ritos de passagem, a separação, a liminaridade e a reintegração estarão presentes na trajetória dos imigrantes. O imigrante, a persona liminar, é um ser sem direitos que deve se submeter aos processos que irão transformá-lo em um novo ser, preparando-o ou modelando-o para enfrentar as situações de seu novo status, agindo conforme as prescrições do papel social que desempenhará. Muitos imigrantes transpuseram esses ritos de passagem. Sobrenomes como Gripp, Klein, Louback, Breder, Berbert, Schuenck, Emmerich, Condack, Schuab e Storck são remanescentes da primeira geração de colonos alemães que não seguiram a diáspora e permaneceram em Nova Friburgo. Os descendentes de suíços têm deixado uma vasta produção historiográfica com narrativas sobre a trajetória de seus ancestrais. Algumas, ainda que com pendor literário no estilo romance histórico, tendo por pano de fundo a saga dos colonos, não deixa de ilustrar a contento a vida desses imigrantes. Porém, não se tem notícia de que os descendentes dos primeiros colonos alemães tenham feito o mesmo, vindo a lume o que lhes resta de memória de seus antepassados.

As terras abandonadas pelos colonos suíços, e certamente de má qualidade, foram distribuídas entre os colonos alemães. Foram expedidas ordens para proceder à medição e divisão de novas terras caso não fossem suficientes as que se achavam abandonadas pelos colonos suíços. O prolífero pastor luterano Sauerbronn(1784-1864) foi fundamental para auxiliar espiritualmente os alemães e minimizar-lhes as dificuldades e agruras dos primeiros anos na vila de Nova Friburgo. Possuía a qualidade de um líder, sabendo impor-se diante dos seus e das autoridades brasileiras. Metade dos colonos alemães que imigraram para Nova Friburgo, seguiu o mesmo caminho anteriormente trilhado pelos suíços. Dirigiram-se para Macaé de Cima, Cantagalo, Barra Alegre, Rio Bonito e outras localidades em busca de terras mais férteis. Alguns migraram para a colônia de São Leopoldo, no sul do país, de onde vinham notícias de que as terras eram melhores. Como somente poderiam fazê-lo com autorização do Imperador, há diversos pedidos de transferência no Centro de Documentação de Nova Friburgo. Dois alemães, Leithold e Rango, que estiveram no Brasil por ocasião da instalação da colônia dos suíços, em Nova Friburgo, escreveram: “Só poderá ser um desastre!” Por outro lado, o alemão Hanfft, assessor de Schäffer, visitou a vila Nova Friburgo, em 1826, e fez o seguinte relatório sobre os colonos alemães: “...Ali passei muitos dias. O terreno desta colônia é péssimo, e por esse lado ela é particularmente censurada. Contudo achei aquela boa e laboriosa gente mui satisfeita, morando em casas cômodas, possuindo bom gado, a alguns até senhores de escravos, em maneira que ninguém mostrava desejos de deixar a sua nova pátria, tanto mais que o governo tinha publicado a tempos que qualquer que achasse o seu terreno[terras] pouco ou mau, escolhesse outro melhor ou maior. Muitas famílias possuem tantas terras e tão férteis, que os seus filhos e netos jamais chegarão a cultivá-las....”




As datas de terras sáfaras e pouco produtivas, distribuídas aos colonos, provocou a diáspora de suíços e alemães para outras regiões, como vimos. Mas muitos colonos que permaneceram se transformaram em cidadãos prósperos, conforme relato de Hanfft. Uma pesquisa realizada sobre as licenças e passes expedidos aos alemães para se ausentarem temporariamente da colônia, denotam que muitos tinham negócios na Corte e cidades vizinhas. Alguns ex-mercenários migraram para Nova Friburgo. Friedrich Gustav Leuenroth(1800-1880), mercenário que serviu no Batalhão de Estrangeiros, depois da dar baixa no Exército, migrou para Nova Friburgo inaugurando a primeira casa de banhos na vila. Posteriormente construiu um hotel, o Hotel Leuenroth, onde se hospedava D. Pedro II quando vinha a Friburgo. Anos mais tarde, Carl Friederich Engert se casaria com a filha de Leuenroth e abriria mais um hotel, o Hotel Engert, um dos mais freqüentados pela elite carioca ao final do século 19. Outros mercenários também vieram para Nova Friburgo: Paul Leuenroth(hoteleiro); Johannes Brust(tanoeiro e cervejeiro); Gottlob Friedrich Orberländer(marceneiro); Adalbert Pockorny; Johann Kehr(ferreiro e agricultor); Heinrich Albert Köhrenkamp(marceneiro e agricultor); Franz Anton Reiff, do Batalhão de Caçadores; Johann Daniel Schwab(sapateiro e agricultor) do Batalhão de Granadeiros; Jacob Winter, do Batalhão de Fuzileiros; Johann Jacob Wolf(alfaiate e agricultor), sargento do Batalhão de Granadeiros, entre outros. Nomes como Braune e Beauclair, alemães que imigraram depois da primeira leva de colonos, foram famílias importantes em Nova Friburgo. Albano Beauclair instalou, em 1893, uma importante cervejaria, fabricando a famosa cerveja Friburgo Brau, além de um biergarten, na entrada da cidade.



Voltando a primeira matéria dessa série em que descrevemos a prisão de cinco mercenários alemães desertores, e sua fuga em Nova Friburgo, acredito que demos conta nesses dez capítulos em explicar o que faziam esses soldados alemães na vila, nos idos de 1825. D. Pedro I, o Imperador-soldado, provavelmente amava o Regimento de Estrangeiros que criou. Sua simplicidade o tornara querido do povo e seu garbo militar, das tropas. No seu leito de morte, pediu que em seu enterro não houvesse exéquias reais. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado. Os mercenários alemães que chegaram ao Brasil lutaram na Guerra Cisplatina, colaboraram com a consolidação de nossa independência e ajudaram a evitar a separação de nossas províncias. Logo, na história da imigração no Brasil, devemos descartar o velho provérbio romano que prevalecia na mentalidade dos brasileiros, no século 19: hospes hostes, ou seja, estrangeiros são inimigos.

A REBELIÃO DOS MERCENÁRIOS:A Imigração Alemã – Parte 10


Mosteiro de São Bento


O quartel da Praia Vermelha, dos Barbonos e até o Mosteiro de São Bento serviram de instalação para os mercenários. Os prédios dos quartéis eram absolutamente insalubres e infestados por ratos, mosquitos, centopéias, escorpiões e bichos-do-pé. Era um inferno a vida na Fortaleza da Praia Vermelha onde as baratas roíam as fardas dos soldados. Tudo isso somado a minguadas refeições, má qualidade da alimentação, doenças como a febre amarela, acrescido dos maus tratos por parte dos oficiais, concorria para minar as forças físicas e o ânimo dos mercenários alemães. Nos quartéis havia ainda mercenários irlandeses, considerados os mais degenerados, onde o álcool concorria para agravar ainda mais o seu comportamento. Os irlandeses, a maioria agricultores miseráveis, chegaram ao Brasil em 1827 com as suas famílias, ludibriados pelo agenciador Cotter, que lhes prometeu terras e não fez referência direta ao serviço militar. Quando aqui chegaram, cerca de 310 homens foram levados forçados para quartéis imundos, sem alimentação, obrigando-os a mendigar pelas ruas sob o escárnio da população. Monsenhor Miranda não ajudou em nada para minimizar o sofrimento daquelas famílias, argumentando que sua atribuição limitava-se aos alemães. Daí a explicação para a entrega à bebida e à revolta por parte dos irlandeses. Nos quartéis do Rio de Janeiro uma rotina de taponas, bordoadas, cachações, palmatórias, cipoadas, chicotadas e pranchadas eram utilizadas para manter a disciplina dos soldados. Alguns castigos eram aplicados diante da tropa formada e com uma banda de música tocando retretas alegres para abafar os gritos do desgraçado castigado. Era uma cena dantesca. A ordem era não refrescar para manter a disciplina. Os soldos eram pagos com meses de atraso, chegando a atingir anos, e ainda vinham com descontos escorchantes. Logo, havia motivos suficientes para que um dia os mercenários se rebelassem. Há historiadores que afirmam que os argentinos, no qual o Brasil se encontrava em guerra pela posse do Uruguai, conspiraram dentro dos quartéis para provocar a rebelião dos mercenários. Afinal, eles faziam a diferença na guerra. No tocante aos castigos corporais não eram eles em si que revoltavam os mercenários, e sim, a arbitrariedade e o despotismo com que eram aplicados por parte dos oficiais. Um soldado alemão foi condenado a 800 chibatadas e chegou a agüentar 500. Como escreveu o ex-soldado alemão Schlichthorst em suas memórias, as costas dos mercenários eram “pasto da chibata brasileira.” Outro problema era que o comando dos soldados alemães estava nas mãos de outros estrangeiros. As autoridades militares do Império não atinaram que, um dia, a tolerância dos mercenários alemães iria terminar. A situação de tensão nos quartéis estava prestes a explodir e houve quem forneceu a pólvora.


Em 09 de junho de 1828, a revolta dos mercenários eclodiu quando um soldado foi condenado a centenas de chibatadas porque não se recolhera ao quartel ao cair o por do sol. Em meio a aplicação do castigo, mesmo com a tropa formada, surgiram vaias e imprecações por parte dos mercenários contra o português Major Drago. De repente, eclodiu no ar um grito de revolta: “Matem o cão português!”. A partir de então ninguém mais controlou os soldados que perseguiam os oficiais e matavam a todos que encontravam. Mercenários alemães e irlandeses se dirigiram para São Cristóvão e reivindicaram junto ao Imperador o fim dos castigos corporais, definição do tempo que estavam obrigados a servir e o pagamento dos soldos. No retorno ao quartel, como a cachaça e o vinho rolavam soltos, os mercenários embriagados surravam os brasileiros que encontravam pelo caminho. A revolta se estendeu por três dias com o assassinato de oficiais, destruição dos quartéis, casas derrubadas e assaltos a vendas e armazéns em busca de vinho e cachaça. O álcool ingerido descontroladamente há dias os transformava em uma turba furiosa e difícil de conter. E pior: não havia tropas nacionais disponíveis na Corte. A maior vítima dos mercenários eram os negros, mortos como moscas. Os negros devotavam ódio mortal aos soldados estrangeiros e a recíproca era verdadeira. Indignados com as agressões e assassinatos ao seu “patrimônio”, os senhores armaram seus escravos para que combatessem os mercenários.



Nesse embate, o Rio de Janeiro virou palco de uma das maiores carnificinas de sua história. Os escravos armados na luta contra os mercenários foram igualmente cruéis, deixando cadáveres de soldados horrivelmente mutilados pelas ruas e muitos com sinais de tortura. O cego furor homicida e a crueldade nas execuções, uns contra os outros, eram praticados tanto pelos mercenários quanto pelos escravos. Somente quando as forças navais inglesas e francesas chegaram, por solicitação do Imperador, foi que os mercenários alemães e irlandeses se recolheram aos quartéis. É interessante que, nesse episódio, foram os escravos que de fato fizeram a diferença no combate aos revoltosos, mas quem recebeu as honras do governo brasileiro foram os franceses e os ingleses. Imediatamente o governo determinou que os escravos fossem desarmados por seus senhores. Realizados os julgamentos e punições, os mercenários foram enviados para bem longe do Rio de Janeiro, no sul do país, e o Regimento de Estrangeiros extinto. Em virtude dessa rebelião, uma lei de 1830 proibiu estrangeiros de envergarem o uniforme do Exército Imperial Brasileiro. Na próxima semana, a última parte: “Nova Friburgo:Colônia Mãe dos Colonos Alemães”



Igreja do Quartel do Barbonos

O ENGENHO CENTRAL LARANJEIRAS: UMA LINHAGEM DE USINEIROS



















O Engenho Central Laranjeiras







Abaixo: familiares das gerações de usineiros.




































Executivos do Engenho Central Laranjeiras




A história de Nova Friburgo não pode ser entendida se não ampliarmos nosso campo de pesquisa para uma região mais ampla. Refiro-me a análise da história regional compreendendo os atuais municípios de Cantagalo, Bom Jardim, Sumidouro, Duas Barras, entre outros. Foram municípios muito mais importantes do que Nova Friburgo, do ponto de vista econômico, no século 19. Dessas regiões saiu a nobreza fluminense, os barões do café, a exemplo do Barão de Nova Friburgo, Barão de Cantagalo, Barão de Duas Barras, Barão de Rimes, entre outros. Por isso, a matéria de hoje, celebrando o mês de aniversário de Nova Friburgo, tem como objetivo chamar a atenção para a importância da história regional, pois tanto a grandeza quanto a decadência desses municípios tiveram impacto direto sobre a história econômica, social e política de Nova Friburgo.







Toda essa região denominava-se Novas Minas das Cachoeiras de Macacu, desbravada inicialmente, ao final do século 18, por garimpeiros originários de Minas Gerais em busca de ouro. Em 1787 é fundado o arraial de Cantagalo, destinado a servir de núcleo de controle, fiscalização e prospecção das lavras de ouro da região. Como as lavras de ouro dos afluentes dos rios Negro, Macuco e Rio Grande fossem pouco significativos, a Coroa Portuguesa recomendou que os sesmeiros voltassem suas atividades à agricultura com o plantio do café, açúcar, lavoura branca (milho, arroz, feijão, de ciclo curto) e na criação de gado. Foram distribuídas inúmeras sesmarias sobre as terras devolutas e assim, ao longo do século 19, surgiram novos povoados, todos eles fazendo parte da Magna Cantagalo. Ao longo desse século esses municípios foram se emancipando gradativamente de Cantagalo, como foi o caso de Nova Friburgo. Por outro lado, Bom Jardim e Sumidouro também já fizeram parte de Nova Friburgo e se emanciparam. Daí a importância de se conhecer a história regional. Nesse artigo, o objetivo é tratar especificamente de um importante distrito de Itaocara, o distrito de Laranjais, que abrigou uma das maiores usinas de produção de açúcar e derivados: O Engenho Central Laranjeiras.







O Engenho Central do Rio Negro foi construído pelos ingleses, em estilo vitoriano, no último quartel do século 19 e suas instalações foram perfeitamente preservadas por seus proprietários ao longo dos anos. Há referência no jornal O Friburguense de que Galdino do Valle foi acionista do engenho na gestão dos ingleses e que em 1893, a usina recebeu imigrantes chineses, os “chins”. Os ingleses montaram um engenho “central” que tinha essa denominação porque centralizavam a produção de açúcar da região objetivando melhorar a qualidade do produto brasileiro para exportação. O engenho adquiria a cana de terceiros in natura, ou na forma de melaço ou de rapadura. Muitos fornecedores preferiam vender ao engenho a matéria-prima em forma de melaço ou de rapadura devido ao custo do transporte. Ao invés de dar várias viagens em carro de boi para entregar a cana ao engenho, davam-se menos viagens para entregar o melaço e muito menos ainda para entregar a rapadura, pois essa última era mais concentrada. No entanto, em 1896, o Engenho Central do Rio Negro faliu e foi a leilão na Comarca de Nova Friburgo. Faltam pesquisas para se saber o motivo da falência e quem eram esses ingleses. O coronel Luiz Corrêa da Rocha arrematou o engenho na ocasião. Filho de um grande proprietário de terras, o pai de Luiz Corrêa da Rocha chegou a possuir 25 fazendas no noroeste fluminense, mas vendeu a maior parte delas devido à má administração de seus negócios. Corrêa da Rocha teve quatro filhos, três mulheres e um filho homem. Foi seu filho Péricles quem deu um grande impulso econômico ao Engenho Central Laranjeiras transformando-o em uma grande potência econômica no noroeste fluminense, como veremos adiante. Engenheiro, Corrêa da Rocha trouxe um grande mestre de açúcar de Campos, Henrique Laranja, e desenvolveu o açúcar cristalizado, extraindo um açúcar mais claro, com uma granulação uniforme. Fabricava igualmente cachaça. Até então, o Brasil produzia na maioria das usinas açúcar mascavo e sem qualidade. Corrêa da Rocha tinha sua base e domicílio em Bom Jardim e por isso só vinha ao engenho de três em três meses. No entanto, tinha controle absoluto de seus negócios. Acompanhado de seu guarda-livros quando inspecionava o engenho, fazia o balanço da lavoura de cana, da “lavoura branca” e da criação. Percorria todo o “quintal”, como se dizia à época, antes de entrar no setor de moagem e produção. Cada gleba de morro tinha uma denominação, a exemplo do Morro Boa Esperança, e em cada um deles um administrador responsável. Ali se definia quanto iria se plantar de cana. O guarda-livros anotava e aquele trato virava um compromisso entre o administrador e o engenho. Era assim que se fazia estimativa da produção. Em Bom Jardim, Corrêa da Rocha foi proprietário de uma torrefação produzindo o Café Luco, onde “Lu” é de Luiz e “Co” de Corrêa.









Luiz Corrêa da Rocha e família. Péricles é o menino à direita.




O sucessor natural de Corrêa da Rocha foi seu filho Péricles Corrêa da Rocha que administrou o Engenho Central Laranjeiras no período de 1930 a 1956. Advogado, prefeito duas vezes em Bom Jardim, deputado estadual e federal foi cassado na Revolução de 30 e a partir de então teve sua carreira política encerrada. Voltou-se assim para a administração do Engenho Central Laranjeiras que herdara sendo o grande modernizador da usina. Péricles substituiu as moendas primitivas e aumentou a quantidade delas, ampliando inicialmente a produção da usina para 400 toneladas de moagem de cana por dia. O maquinário era francês, pois esses detinham a tecnologia do açúcar. A partir de 1932, o maquinário passou a ser americano. Péricles adquiriu novas terras aumentando o plantio de cana própria e mudou a relação com os fornecedores de cana, melaço e rapadura, não se sujeitando mais às condições dos mesmos, que a vendiam a seu alvitre deixando muitas vezes o engenho sem matéria-prima. Um grande avanço empreendido por Péricles foi a construção de uma hidrelétrica, gerando energia própria. Além de ampliar a produção do engenho, diversificou os seus produtos, pois além do açúcar passou a fabricar éter e álcool farmacêutico. O Engenho Central investiu ainda em 28 km de malha ferroviária própria conectada aos trilhos da Cia. Leopoldina. A malha ferroviária atravessava o Rio Negro e ia até o centro de Valão do Barro, distrito de São Sebastião do Alto. Péricles com seu tino comercial estendeu a linha férrea até o Valão do Barro para negociar com os agricultores das lavouras das margens do Rio Grande. Além disso, Valão do Barro era um grande produtor de fumo, café, arroz, milho e cana.







O Engenho Central Laranjeiras na gestão Péricles chegou a ter 1.500 funcionários. Para tanto, Péricles fez o arruamento no entorno do Engenho Central, criando ruas e construindo residências ao redor da sede do engenho para habitação dos seus funcionários, num total de 149 casas. Havia a Rua do Cinema, a Rua da Horta, a Rua “É com esse que eu vou”, a Rua Beija Flor, entre outras. Era um “correr de casas”, conforme denominavam à época. A sociabilidade dos funcionários não foi desprezada. Um cinema foi construído em 1946, com 300 lugares, um clube social para os bailes e uma banda de música formada pelos mecânicos da usina. Na área da assistência social foi igualmente construído um hospital com 22 leitos e uma farmácia. O Engenho Central Laranjeiras era auto-suficiente. Possuía uma grande lavoura de inhame, mandioca, legumes e hortaliças e colhia-se e pilava-se o arroz. Matava-se até oito bois por dia para o açougue, utilizando todo o subproduto do boi para fazer sabão, e criavam-se porcos. As prestações de serviços também não faltavam a exemplo de um sapateiro que há quase um século tem até hoje sua lojinha no mesmo local. A auto-suficiência era tamanha que além de confeccionarem o tecido do saco do açúcar, o algodão do tecido era igualmente plantado no engenho.






Péricles Corrêa da Rocha. O self made man.




Essa prosperidade atraiu algumas famílias de negociantes libaneses que residiam em Nova Friburgo, a exemplo dos Sarruf, Nacif e Nagib, que instalaram comércio em Laranjais. Afinal, todos queriam vender para os 1.500 funcionários da usina. Mas a maior excentricidade e prova da grandeza do Engenho Central Laranjeiras foi a autorização da Casa da Moeda para emissão de uma moeda própria, para circulação interna em Laranjais. Denominavam de “dinheiro próprio”. O objetivo era que o dinheiro circulasse somente por Laranjais e evitasse a sua evasão. A administração do engenho pagava aos funcionários em “dinheiro próprio”, no todo ou em parte. A moeda era quadradinha com a seguinte inscrição: Engenho Central Laranjeiras. O “dinheiro próprio” circulou ainda em papel moeda, mas o que predominava era em metal. Não havia câmbio. Segundo Marcelo Graça, atual proprietário do Engenho, era mais vantagem trabalhar com o “dinheiro próprio”, pois os negociantes de Laranjais adquiriam com essa moeda produtos que a administração do engenho trazia da Aduana a preços mais baratos, já que não pagavam impostos, como bicicletas, tecidos, chapéu panamá, bacalhau, etc. Chama-se isso de “arranjo local”. Alguns estabelecimentos de outros municípios também aceitavam a moeda de Laranjais. Depois essa autorização de emissão de moeda foi cassada. Só essa passagem vale uma tese de doutorado para entender o complexo sistema da microeconomia local. Em Bom Jardim, Péricles montou ainda uma fábrica de balas, a Busi, empregando 150 mulheres e a vendeu ulteriormente para a Dulcora. Construiu ainda nesse município a primeira fábrica de ovos de páscoa do Brasil.






De 1956 a 1958 a administração do engenho ficou acéfala. Em 1958, Álvaro Luiz Corrêa Graça, em sociedade com um primo, adquiriu de seu tio Péricles e das tias o Engenho Central Laranjeiras. Era a quarta fase da gestão do engenho. Mas os tempos eram outros e veio a crise do setor açucareiro. Segundo Marcelo Graça, filho de Álvaro Graça, o governo militar interferiu na atividade açucareira, criou o IAA - Instituto do Açúcar e do Álcool - e passou a ditar regras. Ainda segundo ele, o governo “passou a ser patrão da usina, dono da usina, era ele quem decidia o preço do açúcar”. Deixou de haver o livre comércio e conseqüentemente a falência de inúmeras usinas. Quando o Engenho Central Laranjeiras encerrou suas atividades em 1972, já haviam falido vinte usinas em Campos, devendo a todo mundo. De acordo com o Dr. Álvaro Graça, “por volta de 1965 e 1970 as grandes usinas foram gradativamente indo a leilão e as famílias tradicionais sendo devoradas. Parecia que havia uma intenção política de tirar o Estado do Rio da atividade açucareira.” Marcelo Graça faz questão de destacar que o Engenho Central não requereu falência, mas encerrou suas atividades tão somente. Nessa ocasião, o engenho moía entre 800 e 1.200 toneladas de cana por dia. Era uma grande usina na década de 70.







Quando o Engenho Central encerrou suas atividades muitos de seus funcionários foram trabalhar nas indústrias de Nova Friburgo, a exemplo da Rendas Arp, Ferragens Haga e metalúrgicas em geral. Era uma mão de obra especializada em fundição e mecânica. Em Nova Friburgo, dava-se preferência a quem trabalhara no Engenho Central Laranjeiras. Quem tivesse registro na carteira de trabalho impresso Companhia Engenho Central Laranjeiras tinha emprego certo: “Isso porque sabem que é rassudo. Porque quem nasce numa usina de cana de açúcar não pode ser malandro”, afirma Marcelo Graça. Ainda segundo ele, “Friburgo inchou e quem inchou Friburgo? Foi o noroeste fluminense. O noroeste fluminense de 1850 era o celeiro alimentar do Rio de Janeiro. Miracema foi o município maior plantador de arroz do Brasil até 1920, aproximadamente. Hoje não produz nem um saco. As linhas férreas viviam carregadas. A madeira de lei do Rio de Janeiro saía daqui(...) O sul do Estado do Rio era pobre, Resende era pobre. Em 1900, o noroeste fluminense era um lugar rico e por que não voltar a ter investimento aqui? Foi o berço da civilização fluminense. Foi mais desenvolvida muito antes do Vale Médio do Paraíba[se refere ao cultivo do café]. O noroeste fluminense tinha lavoura branca [milho, arroz, feijão] que alimentava a Corte. O ciclo do café de Valença até Vassouras foi depois, de 1840 em diante....”




Foram três gerações que se iniciou com o coronel Luiz Corrêa Rocha, originando uma linhagem de usineiros. Atualmente as instalações do Engenho Central Laranjeiras estão sendo adaptadas para a construção de uma fábrica de papel que possibilite trabalhar com qualquer tipo de matéria-prima, seja ela reciclada ou virgem. Inicialmente serão gerados 92 empregos diretos. Depois da diáspora dos funcionários do Engenho Central Laranjeiras para Nova Friburgo, devido a crise do setor açucareiro na década de 70, a situação se inverte. Existem nesse momento 30 homens que residem em Friburgo, de famílias do Engenho Central Laranjeiras, trabalhando na instalação da nova indústria de papel. Nós estaremos “descarregando Friburgo um pouco”, diz Marcelo Graça, triunfante. Diante de todos esses fatos, é possível falar da história de Nova Friburgo sem dialogar com a história regional?






Álvaro Graça: último da linhagem de usineiros.







O Clube Social: Nos bailes do Engenho de um lado ficavam os brancos e do outro os negros.







o antigo cinema







Residência na vila do Engenho







Residência na vila do Engenho







Fábrica de caramelos Busi em Bom Jardim(RJ)






Torrefação de café em Bom Jardim(RJ)









Hidrelétrica construída por Luiz Corrêa da Rocha no início do século 20 em Bom Jardim(RJ)






Residência de Péricles Corrêa da Rocha em Bom Jardim(RJ) ainda pertencente à família.








PRIMEIRA PARTE:


SEGUNDA PARTE:


OS COLONOS ALEMÃES POR SCHLICHTHORST:A Imigração Alemã – Parte 9











O alemão Schlichthorst, ex-oficial do Imperial Exército Brasileiro, que serviu no período de 1824 a 1826, nos deixou interessante registro sobre a situação dos colonos de Nova Friburgo e do sistema de distribuição de terras no Brasil. Não obstante o regime de sesmarias(doação de terras) ter sido extinto no Brasil em 1822, desconhecendo tal circunstância, Schlichthorst aconselha aos alemães que desejassem emigrar para Brasil, como proceder para conseguir esse benefício. Schlichthorst nos relata a corrupção que havia para obter uma sesmaria e estranhamente elogia Monsenhor Miranda, considerado como um homem venal e “mulherengo”. Vamos conhecer então o relato que esse oficial alemão nos legou em suas memórias:




“A sorte dos colonos, em geral, não é melhor do que a dos soldados. Embora não se possa negar que o Governo lhes fornece muita coisa, pouco proveito auferem disso, porque as quantias destinadas a auxiliá-los são, na maior parte, furtadas pelos funcionários encarregados de sua distribuição. Deve-se, no entanto, proclamar, para glória do chefe do serviço de colonização estrangeira, que ele é, além de homem honesto, dono de excelente coração, fazendo o possível para melhorar a situação dos colonos e até grandes sacrifícios para ajudar a alguns soldados. Falta-lhe, porém, a energia precisa para coibir os abusos que penetraram pouco a pouco, desde o começo, num sistema, cujo fim principal era arranjar soldados para o Imperador. Como já fiz notar, todas as pessoas que vão para o Brasil à custa do Governo são feitas soldados logo que chegam, salvo se de todas inaptas para o serviço. Tiram-se, assim, às famílias seus braços mais capazes, mandando-se para as colônias apenas velhos e crianças. Os que pagaram as passagens do próprio bolso são livres. Fora disso não gozam de preferência alguma. O Governo paga a um colono 8 vinténs por dia, durante o primeiro ano após sua chegada. Às crianças, metade. Como por nova disposição de lei, esse dinheiro não é pago à vista, mas em gêneros alimentícios, a maior parte fica nos bolsos dos funcionários e de seus fornecedores. Se nas vizinhanças da cidade os colonos são miseravelmente alimentados, imagine-se o que não será essa alimentação a centenas de milhas de distância. Para o segundo ano, dá-se metade do auxílio do primeiro. Depois, tem de cuidar de si próprios. A colônia de Nova Friburgo fica a poucos dias de viagem da capital, mas os caminhos são tão ruins que os colonos não podem vir à mesma vender seus produtos.[refere-se a vender seus produtos no Rio de Janeiro] Reina ali tão grande pobreza que muitos assentaram praça voluntariamente ao se criar o Corpo de Estrangeiros e outros andam mendingando para poderem viver como párias.(...) Rastrilho e arado são desconhecidos no Brasil. A terra tem que ser trabalhada a enxada.(...)Tudo o que o Major von Schäffer, na sua obra sobre o Brasil, diz a respeito do gado e dos instrumentos agrícolas fornecidos aos colonos é inverídico. Quando muito, recebem uma enxada, um machado e um serrote para derrubar a impenetrável mata virgem que cobre geralmente a terra que lhes foi distribuída....”.




No Centro de Documentação de Nova Friburgo há uma representação do alemão “Gadermenn” junto ao diretor da Colônia que corrobora com essa última assertiva. Declara que sua terra era “cheia de mata” e que com sua mulher e 4 filhos pequenos não a poderia derrubar. Pediu para ser transferido para a Colônia de São Leopoldo, no sul. As memórias de Schlichthorst finaliza com conselhos aos alemães que desejam emigrar para o Brasil: “...Aconselho, todavia, a qualquer trabalhador hábil e diligente que queira fazer fortuna, que vá para o Brasil, pagando a passagem do próprio bolso, para não ser feito soldado ao chegar lá(...)Quem trouxer algum dinheiro para o Brasil também pode empregá-lo vantajosamente em bens de raiz. No caso de possuir uns 10 ou 20 táleres[dinheiro alemão], poderá arranjar com o governo uma sesmaria, que é como denominam as posses de terras doadas pelo Estado. Geralmente são do tamanho de uma légua quadrada. Os emolumentos do título de doação ascendem a uns 1.500 táleres. Com algum conhecimento da região onde a gente se quer estabelecer, empregam-se mais uns 1.000 táleres, para dar mais força ao pedido, e conseguem-se assim umas 5.000 geiras de terras excelentes.[note aqui o tráfico de influência dos funcionários públicos, através do recebimento de propinas, na concessão de sesmarias]. Parte do capital servirá para comprar escravos e levantar edificações muito singelas com abundante material tirado ao próprio terreno.(...) A lei determina que no prazo de 5 anos, a sesmaria deverá estar demarcada e ocupada, reservando-se ao Governo o direito de retomá-la se, dentro de 20 anos, não for cultivada[Na realidade, esse prazo era de 5 anos]. Estas duas condições obrigam ao emprego de todos os esforços para roçar a mata virgem, a fim de dar à posse de terra pelo menos aparência de cultivo....” É interessante que, em outras recomendações dadas por Schlichthorst aos que desejam emigrar para o Brasil, a aquisição de escravos está sempre presente como meio de fazer fortuna. Na próxima matéria, “A Rebelião dos Mercenários”.





















Todas as fotos acima são de colonos alemães que imigraram para o sul do país.

NOVA FRIBURGO NA DÉCADA DE 30













ANEXO, TAMBÉM O RIO DE JANEIRO NA DÉCADA DE 30:



Esse vídeo foi cedido pela família SPINELLI, imigrantes italianos que vieram para Nova Friburgo no final do Século 19.

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